28 de agosto de 2013

Assim


Leio livros
Escrevo amores
Ouço canções
Canto pras flores
Planto ilusões
Coleciono cores
Visto mil sensações
Transformo os dissabores
Dispo-me das recordações
Pra enfeitar meus valores


Lai Paiva

25 de agosto de 2013

Apenas Isso


Morra mil vezes este amor
Acabe-se antes de mim
Limpa a lembrança de outrora
Mova-se a saudade amarga
Prepara a poesia seguinte
Livre-se do que ressecou
Viva depois de amar
Ame-se e a quem merecer


Lai Paiva


19 de agosto de 2013

Depois



Depois de amar
Pra que o amor
Depois de viver
Pra que poetizar
Depois de ter
Pra que anoitecer
Depois de ser
Pra que acabar
Depois de nós
Pra que recordar...


Lai Paiva

11 de agosto de 2013

Dia dos Pais


P orque perto eu preciso que esteja
A inda que palavra alguma me diga
I nsisto em vê-lo na solidão dos meus dias


Lai Paiva

4 de agosto de 2013

Pra Agora



Não do amor
Eu desisto de amar
Não de viver
Eu desisto da espera
Não de sonhar
Eu desisto do engano
Não de ser sua
Eu desisto da solidão
Não de namorar
Eu desisto da traição
Não da esperança
Eu desisto da mágoa
Não de você
Eu desisto de nós
Não da boca pra fora
Eu desisto pra sempre...


Lai Paiva

26 de julho de 2013

À Espera


Saudade da saudade dele
Vontade da ansiedade nossa
Ávida por meus beijos nele
Desejosa do que somos juntos
Apaixonada pela paixão minha
Esperando que ele volte meu
Dos quilômetros que não quero nossos...


Lai Paiva

21 de julho de 2013

Ele e Ela


Eles foram ao mesmo evento naquele dia
Ela o olhou com aprovação
Ele elogiou a beleza da amiga
Eles não esticaram a noite na creperia 
Ele pegou o número do telefone dela
Ela não disse coisa com coisa ao ouvi-lo
Eles desligaram achando que não mais ligariam
Ele recebeu uma mensagem dela com surpresa
Ela queria causar boa impressão
Eles começaram a trocar mensagens
Ele a enchia de uma ansiedade gostosa
Ela o fazia amanhecer mais alegre
Eles estavam se conquistando aos pouquinhos
Ele lhe mandava canções de "presente"
Ela lhe escrevia poemas singelos
Eles já estavam enamorados
Ele a enviou as mais belas flores
Ela mandou-lhe cartões com fotos dela
Eles eram um presente um pro outro
Ele foi ao Shopping sem sabê-la lá
Ela propôs encontrá-la na loja em que estava
Eles tiveram o primeiro encontro na loja de bichos de pelúcia
Ele anoitecia pensando nela
Ela amanhecia sonhando com ele
Eles passavam as horas acarinhando um ao outro
Ele não suportava mais o desejo em beijá-la
Ela sucumbiu ao seu pedido de vê-la
Eles se beijaram no primeiro semáforo fechado
Ele estava lindo naquela euforia invencível
Ela já estava apaixonada pelos seus olhos raros
Eles se amaram como se fossem morrer de amor
Ele não conseguia deixá-la de volta em casa
Ela não queria mais perdê-lo de vista
Eles foram perfeitos naquela noite
Ele a deixava cada vez mais encantada
Ela vivia deixando-o saudoso dela
Eles logo se disseram "eu te amo"
Ele foi por muitos meses seu par ideal
Ela o fez ter dias melhores
Eles pareciam maiores que o tempo
Ele aos poucos foi causando tristeza
Ela muitas vezes teve que maltratá-lo
Eles estavam perdendo a harmonia
Ele mentia como quem conta verdades
Ela demorou a acreditar nas evidências
Eles minaram o respeito um do outro
Ele cometeu os piores erros
Ela o perdoou por amor em demasia
Eles resolveram tentar ficar juntos
Ele nunca mais foi aquele de antes
Ela já não se sentia a mesma
Eles estavam se distanciando sem ver
Ele traiu seu amor e lealdade
Ela o tratou da forma mais contundente
Eles sentiram que tudo estava perdido
Ele insistia em dar-lhes outra chance
Ela acatou seu pedido por vezes
Eles não sabiam mais ser como eram
Ele a fazia voltar ao beijá-la
Ela o fazia feliz em silêncio
Eles queriam ter sido perfeitos
Ele era o céu e o inferno dela
Ela era a flor e o espinho dele
Eles já não se reconheciam
Ele a estava frustrando demais
Ela o estava descontentando também
Eles não eram mais a paixão de outrora
Ele não enxergava suas falhas
Ela não as deixava de apontar
Eles estavam chegando à exaustão
Ele acostumou-se demais a tê-la sua
Ela o amava demais pra virar-lhe as costas
Eles iriam até onde o sentir os levariam
Mas
Eles sabiam que não iriam tão longe...


Lai Paiva




14 de julho de 2013

Ele



Em tudo deveria ter um pouco de você
Todas as cores deveriam ser da cor dos seus olhos
Todo perfume deveria ter o cheiro do seu pescoço
Todo sabor deveria ser igual ao seu beijo
Todos os nomes deveriam começar com a letra do seu
Todas as músicas deveriam ter a melodia da sua fala
Toda poesia deveria ter aqueles versinhos que você diz sem poetizar
Toda vez que chovesse deveriam chover seus carinhos
Toda nova manhã deveria ter o seu rosto lindo no lugar do sol
Toda janela deveria ter a sua imagem através dela
Toda roupa que me veste deveria ser como seu abraço
Toda coberta deveria ter a textura da sua pele
Todo banho deveria ser quentinho como você
Toda barra de chocolate deveria vim com uma mordida sua
Todo inverno deveria vim acompanhado da sua presença
Todo sentimento deveria ter o seu sentido
Toda alegria deveria ter o seu sorriso
Todo afago deveria ser feito com as suas mãos
Todo coração deveria ter a forma dos seus lábios
Toda emoção deveria vim com seus arrepios
Toda xícara de café deveria ter você como adoçante
Todo filme deveria ser sobre o jeito único de ser você
Toda saudade deveria ser pra morrer em seus braços
Todo cuidado deveria ter a sua proteção
Todas as flores deveriam ser as begônias que você me deu
Todo o mundo deveria ser só você
Em tudo deveria mesmo era ter você inteiro...



Lai Paiva





3 de julho de 2013

Ainda Não



Eu ainda te desejo
Mas eu não te quero mais
Eu ainda te acho lindo
Mas eu não te admiro mais
Eu ainda sinto teu cheiro
Mas eu não te sinto mais
Eu ainda sonho com você
Mas eu não te idealizo mais
Eu ainda te beijo sozinha
Mas eu não te aprecio mais
Eu ainda te escrevo poemas
Mas eu não te destino mais
Eu ainda ouço canções por você
Mas eu não te escuto mais
Eu ainda me lembro de você
Mas eu não te eternizo mais
Eu ainda te vejo por vezes
Mas eu não te enxergo mais
Eu ainda te amo o bastante
Mas eu não te gosto mais


Lai Paiva

(en)fim



(Ilustração de Nicoletta Ceccoli)



Eu te amei sem perceber
Quando tudo entre nós
Já era amor
Eu te falei verdades doces
Que a ninguém mais revelei
Eu desejei dias sem fim
Pra renascer ao seu lado
Eu te guardei nos meus poemas
Pra te fazer eterno pra mim
Eu me entreguei sem receio algum
E só te queria assim
Eu me magoei sem sarar
E menti que não mais te queria
Mesmo sentindo teu beijo
Eu não posso mais ser-te
Ainda que haja o amor
Eu me sinto infeliz
Com o que você quer me dar
Eu não quero mais
Aquilo que você mente ter
Eu enfim aprendi chorando
Que me amar é mais que isso
E se não foi você a fazê-lo
Serei eu a amar-me sozinha


Lai Paiva


2 de julho de 2013

Sobre Cactos e o Amor



Todo o mundo gosta de alguma coisa. Todo o mundo gosta muito de alguma coisa. Todo o mundo é enamorado em demasia por algo. Eu sou por cactos. De todo tipo: palma, mandacaru, cabeça de frade, etc. Eu os acho fortes, imponentes, e, mesmo parecendo contraditório, apesar dos espinhos, eles conotam pra mim uma beleza tão singela, tão tocante, que me faz passar muitos instantes a admirá-los. Esqueço de contar o tempo quando estou frente a um. Parece que o tempo não passa pra que eu não deixe de contemplá-los. Seja de que tipo ou tamanho for. E, claro, eu tenho os meus próprios cactos na minha casa. Estão comigo há anos, sob os meus cuidados e admiração. Gosto de ser surpreendida ao verificar se está tudo bem e me deparar com seus novos espinhos nascendo. Pra mim é como ver algo se renovando. Aqueles espinhos são o resultado do meu apreço, da minha proteção, do meu cultivo. Isso me felicita tanto quanto qualquer outro momento de contentamento maior. O amor é bem assim. Com espinhos e tamanha beleza. E, assim como os cactos, o amor também precisa de terreno fértil e de cuidados especiais, mas nada muito complexo. Por exemplo, no que concerne aos cactos, é preciso atentar para o tamanho dos vasos. Se for muito pequeno pode acarretar a asfixia das raízes, fazendo com que cresçam pouco ou nada, levando-os à morte. Se for muito grande, consequentemente levará muita terra, o que aumentará a absorção da água, fazendo com que as raízes apodreçam. O amor também precisa de atenção. Amar não basta. É preciso cuidar do amor. É preciso uma dose diária de estímulo, de incentivo, de enaltecimento, de atenção. Dispersar-se do amor, é matá-lo. E é tão simples cuidar. O cuidado está nos pormenores. Ambos, amor e cactos, nascem, crescem, morrem. Mas, enquanto vivos, têm o mesmo dom de fascinar, de nos pôr em completo estado de torpor, de encantamento. Se a gente chegar muito perto do amor, sem a cautela de saber como tocar, a gente se machuca, assim como acontece com os cactos. E é possível, sim,  tocar o amor, porque o amor tem a forma que a gente dá pra ele, tem o nome que a gente dá pra ele. O nome próprio, a forma inteira, ou a metade. Os cactos também têm diferentes formas. À nossa escolha, embora a minha preferência seja por cactos, independente da forma. O amor tem contornos, tem voz, embora não seja exatamente audível. Só aqueles sujeitos amorosos podem ouvi-lo, visualizá-lo. Os cactos também só são vistos dentro da sua grandiosidade de ser por quem tem olhos para tal. A forma de olhar é que mostra ou oculta algo. Eu quero poder olhar pro amor como olho pros meus cactos todas as manhãs. Enxergando seus detalhes pra saber como me aproximar. Eu quero mais que isso. Quero me aproximar sem me machucar, nem com o amor, nem com os cactos, pra poder ajudá-los a crescer, a dar continuidade aos seus ciclos. Quero os meus cactos comigo em dias de sol e de chuva. Eu os colocarei no melhor lugar, seja pra tomar sol, seja pra se esquivar da chuva. E nos vasos mais apropriados. Quero o amor pra cuidar igualmente. Guardando no melhor lugar. Ao lado dos meus cactos, ou ao lado da minha presença pra ir comigo aonde quer que eu vá. Quero ambos na minha janela. E poder me sentir bonita como eles. Talvez com alguns espinhos, mas com um amor enorme pra amar. Basta que me saibam cuidar. Eu só desejo que haja mais tesouros assim, como cactos e amor, e pessoas que possam tê-los em casa e na alma, cuidando pra não interromper nenhuma etapa, nem matá-los. Eu desejo menos espinhos contundentes, mais amor irretocável. E isso só depende de quem está cuidando. Porque o amor, assim como os cactos, são pra gente aquilo que a gente os permite ser. E farão conosco, seja na janela ou na alma, o que estivermos abertos a deixar que façam. A beleza está bem onde eles estão. Bem à frente dos meus olhos, e porque não de outros? E eles são lindos, mesmo quando, eventualmente, nos machucam. Por isso estarei sempre de olhos bem abertos. E com a janela e a alma enfeitadas. Sempre!



Lai Paiva


30 de junho de 2013


Já amei tudo o que tinha pra amar-te
Já desejei todo o desejo pra ter-te
Já sonhei o suficiente pra viver-te
Já escrevi poesias mil pra cuidar-te
Já esperei tempo demais pra ser-te
Já doloridas vezes perdoei-te
Já me acabei por recomeçar-te
Já inúmeras vezes odiei-te
Já definitivamente desamei-te
Já não há mais nós, acabei-te

Lai Paiva



28 de junho de 2013

Tempo, tempo, tempo


No tempo certo
Tempo ao tempo
As horas que foram
Trarão novos dias
Instantes mais novos
E longe do agora
Que aqui onde estou
Minuto a minuto
Eu conto os ponteiros
Pro dia que avisto
Nascer mais suave...


Lai Paiva

23 de junho de 2013

Sobre Cebola e Desilusões


Sempre detestei cebola. A textura, o cheiro, o gosto. E acho que estou inclusa numa grande parcela da população mundial que compartilha do mesmo dissabor. A cebola é realmente digna de desaprovação. E eu não poderia poupá-la de tal. Quem manda ser ruim? Tão ruim que faz chorar quem a corta, manuseia. Com as desilusões acontece o mesmo, só que, ao invés de as cortarmos, elas é que nos cortam, mas choramos, assim como quando cortamos cebolas. As desilusões são ácidas, as cebolas, também. São ambas indigestas. De gosto duvidoso e de efeito exato. A cebola marca o sabor das coisas. Contamina, se sobressai sobre qualquer outro ingrediente. As desilusões, também.  Elas anulam os sorrisos dos lábios, ocultam os suspiros de leveza, danificam a motivação e o ânimo. Sobressaem-se até mesmo entre os mais fortes. Não há como uma receita, que contenha cebola, ficar imune ao seu gosto forte. Não há como se imunizar contra as desilusões, por mais que tantas outras já tenham sido vividas. Nenhuma papila digestiva está aberta para recepcionar aquele sabor. Nenhuma alma está aberta para desiludir-se. Acontece. Acontece de pegarmos de surpresa um pedaço de cebola no meio de uma fatia de torta salgada e nos desencantarmos daquilo que estava tão bom. Acontece de, no meio da felicidade, encontrarmos uma desilusão, que já estava lá, no meio de tudo, escondida, à espera de ser descoberta. E aí é como cortar cebolas. Lágrimas ácidas e cheiro característico. Aquele cheiro que a tristeza tem. Por outro lado, apesar de detestar cebola, e, obviamente, desilusões, preciso ser franca. Não sei se foi por causa do poder de persuasão que talvez a cebola tenha, ou por algum outro motivo que eu desconheça, mas preciso afirmar que adoro bife acebolado. Como assim? Não sei. É claro que, depois de preparado, eu tiro as rodelas de cebola de cima pra me deliciar. E me delicio. Assim, como quem ama cebola. É um momento antagônico. Quem o observa, certamente pode afirmar que eu sou fascinada por cebola, tamanha a minha avidez por aquele prato. Mas a verdade é que eu odeio cebola, só que eu adoro esse prato que a contém e que foi contaminado pelo seu sabor e cheiro. Percebo que com certas desilusões acontece o mesmo. Como se fosse uma desilusão pro bem. Um divisor de águas. A partir daquela desilusão, tudo será melhor. Era preciso vivenciá-las, ou melhor, sofrê-las, para alcançar o bem almejado. Porque as desilusões ensinam, fortalecem, quando não matam. Sim, discordo de quem afirma que se viveu uma ou outra desilusão. Não se as vive. As desilusões matam. Mesmo quando ainda permanecemos vivos por um longo tempo. Elas são marcantes, assim como a cebola. Ninguém quer desiludir-se, mas, às vezes, mesmo sem entendermos naquele momento, é necessário, pra dar outro sabor aos dias. Como a cebola, que, sem dúvida, deu um sabor diferente ao bife. Afinal, o que seria do bife acebolado se não fosse a cebola? Um mal, se assim posso chamar, necessário. Como certas desilusões. O que importa mesmo é o resultado final. Que tudo seja digestivo. O bife, a tristeza. Importante é sentir que as lágrimas que as desilusões fazem fluir serão momentâneas, que durarão apenas o tempo de cortar toda uma cebola. Mas que depois virão outros suspiros e outras delícias. Pras papilas digestivas e pra alma. Porque pra tudo há um propósito. Só precisamos descobrir. Eu só descobri que adoro bife acebolado depois de enfrentá-lo, de experimentá-lo, mesmo contra minha vontade. E descobri que algumas desilusões vieram pros meus dias pra que eu tivesse dias melhores ao passar por elas. Então eu resolvi enfrentá-las e experimentá-las, mesmo contra minha vontade. Porque, muitas vezes, nem tudo o que parece desgostoso o é totalmente. É só uma questão de sentir de outra forma.



Lai Paiva


18 de junho de 2013

Sobre Beijo e Chocolate



Pra certas coisas há outras coisas pra assemelhar. Dentre essas coisas pensei no beijo. Daqueles beijos de se querer beijar sem fim. Daqueles beijos de turvar os olhos e acelerar os batimentos cardíacos, a ponto de senti-los ecoar no peito de outro alguém. Um beijo de inflar os lábios, de umedecê-los, de causar calor e despertar amor. Um beijo de liberar substâncias mágicas, de correr o corpo e terminar na alma. De um sabor que não se esquece nunca. De uma textura de não querer largar. Assim como o chocolate. Posto na boca, por entre os lábios, como num beijo, causa leveza e encantamento por seu sabor. Age suave, mas com a certeza de inebriar a quem o toca. Aquele gosto, do mesmo gosto do beijo alheio, de um bem querer, que faz querer muito. Mais de um beijo, uma barra grande de chocolate. Branco ou preto. Ao leito ou amargo. Selinho ou de língua. Dado ou roubado. O mesmo arrepio. O mesmo suspiro. Pupilas dilatadas e o esquecer de respirar. Endorfinas que apaixonam. Sensação que vicia. Liberdade pra sentir-se bem. Um cheiro pra viver recordando. Saliva e cacau. Hálito e açúcar. Desejo e moderação. Calorias e derretimento. É o beijo derretendo o prazer por dentro. E o chocolate misturando os sentidos. Dedos marcados por tamanha delícia. Lábios que beijam esses mesmos dedos. Vestígios que fazem querer mais. A boca pra comer de novo. A língua pra amaciar seu tom. O olfato pra se enamorar. Uma barra inteira num instante único. Um beijo longo pra uma vida toda. E se estiverem juntos há de ser maior que os olhares digam. Um perturbando o outro. De um perturbar macio. De um transpirar gostoso. Uma mistura íntima de ingredientes pra um sentir incomum. Na boca de quem a boca der para ser beijada. Beijos como chocolates. Derretidos naquela vontade. Uma vontade de sentir por horas, de durar um século, aquela maravilha de proporcionar ao corpo o sair de si pra entrar no outro, enquanto os lábios forem aquelas doces margens, que permeiam o apreço misturado ali. E depois levam à saudade. Um voltar de novo a beijar profundo o beijo exato pro contentamento. O chocolate de outrora, que se tornou líquido no saborear de quem o devorou. Em seguida a ânsia pela redundância daqueles instantes de chocolate e beijo. Que é por cada um e pelos dois iguais que a boca pede já inebriada e tão desejosa de provar de novo a grandiosidade daquele efeito que só ambos causam, até pelo avesso, no minuto exato em que os lábios rendem-se àquela semelhança de entorpecer como quase nada há de fazer igual.



Lai Paiva


4 de junho de 2013

Sobre pessoas e palavras


Certa vez, não sei exatamente quando, como e nem o motivo, eu parei tudo e me perguntei se existem mais pessoas ou mais palavras no mundo... Desisti em seguida de pensar sobre isso. Foi então que preferi ater-me a encontrar as semelhanças entre elas. 
Todo dia nascem tantas pessoas novas, mas também morrem outras tantas. As palavras não nascem diariamente, eu acho, mas também não morrem frequentemente. Algumas palavras saem de uso, ou tornam-se raras. As pessoas, também. Saem de uso quando morrem. Tornam-se raras à medida que envelhecem, adoecem, perdem o vigor e a proatividade. As pessoas usam as palavras, mas estas, sem dúvida alguma, também as usam. Há quem tenha mais palavras em seu vocabulário usual do que pessoas em seu convívio. As pessoas falam demais. As palavras talvez falem ainda mais. As pessoas têm identidade, as palavras, também. Há pessoas semelhantes, pessoas plurais, pessoas singulares, pessoas simples e pessoas complexas. Assim como as palavras. As palavras são resultante da união de sílabas, que resultam da união de letras. As pessoas resultam da união/relação, mesmo que momentânea, de duas pessoas, ou da união de duas células, que corresponderiam às sílabas. Cada palavra carrega com ela o seu significado, ou os seus significados, a sua relevância, o seu valor. Ela é escrita ou falada com algum objetivo. E geralmente ela o atinge. As pessoas também têm os seus valores e sempre significam algo. Ninguém está aqui por acaso, ainda que algumas pessoas se sintam assim eventualmente. As pessoas são ricas. Ricas de tesouros internos. Uns descobertos, outros, ocultos. As palavras também. Quando explícitas, mostram logo porque ali estão, mas às vezes se escondem nas entrelinhas. Algumas pessoas também tendem a se mostrar pouco. Nos dois casos imagino que seja precaução ou embelezamento. Sim, pois fica bonito um texto em que se lê algo nas entrelinhas, se descobre algo que não foi descrito claramente. Com as pessoas também é assim. É mais atrativo ir descobrindo uma pessoa aos poucos. Pessoas enigmáticas podem ser preferíveis. Imagino uma pessoa sendo tratada como palavra de difícil pronúncia e grafia, que é preciso soletrá-la para escrevê-la corretamente. Letra por letra. Do início, lentamente, até o fim. A partir dos olhos, passando lentamente por cada parte falante do seu corpo, até os dedos dos pés. Domando o medo de errar. Absorvendo a certeza da escrita, ou da descrita. É excitante. As palavras são excitantes. Este não é um dom restrito às pessoas. Elas carregam tanto. Imprimem tanto. Uma mesma palavra pode ser doce ou amarga, depende apenas de quem a está escrevendo ou falando. Eu admiro a força que elas têm. As palavras. E as pessoas, claro. Há pessoas doces que escrevem palavras contundentes de forma irretocável. Assim como pessoas ácidas podem escrever palavras brandas. Na verdade é como se elas pincelassem as palavras, porque elas já têm aquela forma. O conteúdo, a personalidade é que é dada. Sim, as palavras têm personalidade. Eu sempre mantive uma relação muito estreita com elas. Mais que com as pessoas, confesso. As palavras me dão uma liberdade que ninguém me deu. Quando as escrevo eu posso ser eu mesma, sem pudor algum. Com as pessoas a gente sempre precisa se podar um pouco. Ninguém é completamente o que é, quando está com os outros, embora ninguém admita. Escrevendo, sim, a gente vira ao avesso. As palavras me usam e eu as uso, e ninguém sai perdendo com isso, como acontece quando as pessoas se usam. E eu sou consciente de que escrever é uma responsabilidade tamanha, pois é a referência que estou conotando em cada palavra. Embora ela já tenha o seu significado, eu, enquanto escritora, estou fortalecendo a sua imagem, o seu peso, o sentido que ela carrega. A emoção, o sentimento, a tradução. Poucas pessoas são abertas à moldar-se assim. Sim, é um risco. Podemos, todos nós, fazer mal uso das palavras e reduzi-las à nada. Podemos querer e tentar mudar algo nas pessoas que julgamos necessário, mas na realidade não são, e podem até torná-las menores do que são. As pessoas erram. Assim como as palavras podem se apresentar erroneamente. É a vida. A nossa e a delas. O bom é que estaremos juntos por todo o tempo. As palavras não vão deixar de existir antes das pessoas. E nem o inverso. Estaremos todos convivendo juntos. Passíveis de sermos escolhidos ou negligenciados. Até lá é melhor nos esforçarmos pra continuar causando uma boa impressão. As pessoas às palavras, e estas àquelas. Pois enquanto houver um último suspiro, haverá sempre a última palavra. 


Lai Paiva


30 de maio de 2013

Amo



(Ilustração Jana Magalhães)


Eu te amo hoje
Pelo amor de ontem
Por cada dia seguinte
Com o amor de sempre
Reafirmado a cada hora
Nas horas em que estou
Te amando por toda vida

Lai Paiva

28 de maio de 2013

Ímpar



(Ilustração de Nicolleta Ceccoli)


Todo mundo tem um par
Todo par tem um porquê
E porque estou tão ímpar
Sinto o tempo não passar
Passo os dias esperando
A ausência ir embora
Ir embora do meu lado
Que as horas são mais longas
Pra quem vive tão sozinha


Lai Paiva


26 de maio de 2013

Poética



(Ilustração Nicoletta Ceccoli)


Na minha alma levo a poesia
Pra poesia eu me reinvento
Sou tantas quanto tantos versos tenho
A descrever o que trago em mim
Só tenho isso atrás dos meus olhos
E no interior do silêncio meu
A deixar aqui quando for pra longe
O lugar mais longe que eu posso ir
De onde a poesia me faça acenar
Aos que hão de ler os versos que eu deixei
Beijando todos como tanto fiz
Enquanto alma eu tinha no meu peito


Lai Paiva




Eu


O estar sem é tão só
O estar só é tão meu
O ser eu é tão grande
O estar em mim é tão pouco
O pouco me incompleta 
O que falta me guarda
O que guardo sou eu
O que sou, solidão


Lai Paiva