26 de julho de 2013
À Espera
Saudade da saudade dele
Vontade da ansiedade nossa
Ávida por meus beijos nele
Desejosa do que somos juntos
Apaixonada pela paixão minha
Esperando que ele volte meu
Dos quilômetros que não quero nossos...
Lai Paiva
21 de julho de 2013
Ele e Ela
Eles foram ao mesmo evento naquele dia
Ela o olhou com aprovação
Ele elogiou a beleza da amiga
Eles não esticaram a noite na creperia
Ele pegou o número do telefone dela
Ela não disse coisa com coisa ao ouvi-lo
Eles desligaram achando que não mais ligariam
Ele recebeu uma mensagem dela com surpresa
Ela queria causar boa impressão
Eles começaram a trocar mensagens
Ele a enchia de uma ansiedade gostosa
Ela o fazia amanhecer mais alegre
Eles estavam se conquistando aos pouquinhos
Ele lhe mandava canções de "presente"
Ela lhe escrevia poemas singelos
Eles já estavam enamorados
Ele a enviou as mais belas flores
Ela mandou-lhe cartões com fotos dela
Eles eram um presente um pro outro
Ele foi ao Shopping sem sabê-la lá
Ela propôs encontrá-la na loja em que estava
Eles tiveram o primeiro encontro na loja de bichos de pelúcia
Ele anoitecia pensando nela
Ela amanhecia sonhando com ele
Eles passavam as horas acarinhando um ao outro
Ele não suportava mais o desejo em beijá-la
Ela sucumbiu ao seu pedido de vê-la
Eles se beijaram no primeiro semáforo fechado
Ele estava lindo naquela euforia invencível
Ela já estava apaixonada pelos seus olhos raros
Eles se amaram como se fossem morrer de amor
Ele não conseguia deixá-la de volta em casa
Ela não queria mais perdê-lo de vista
Eles foram perfeitos naquela noite
Ele a deixava cada vez mais encantada
Ela vivia deixando-o saudoso dela
Eles logo se disseram "eu te amo"
Ele foi por muitos meses seu par ideal
Ela o fez ter dias melhores
Eles pareciam maiores que o tempo
Ele aos poucos foi causando tristeza
Ela muitas vezes teve que maltratá-lo
Eles estavam perdendo a harmonia
Ele mentia como quem conta verdades
Ela demorou a acreditar nas evidências
Eles minaram o respeito um do outro
Ele cometeu os piores erros
Ela o perdoou por amor em demasia
Eles resolveram tentar ficar juntos
Ele nunca mais foi aquele de antes
Ela já não se sentia a mesma
Eles estavam se distanciando sem ver
Ele traiu seu amor e lealdade
Ela o tratou da forma mais contundente
Eles sentiram que tudo estava perdido
Ele insistia em dar-lhes outra chance
Ela acatou seu pedido por vezes
Eles não sabiam mais ser como eram
Ele a fazia voltar ao beijá-la
Ela o fazia feliz em silêncio
Eles queriam ter sido perfeitos
Ele era o céu e o inferno dela
Ela era a flor e o espinho dele
Eles já não se reconheciam
Ele a estava frustrando demais
Ela o estava descontentando também
Eles não eram mais a paixão de outrora
Ele não enxergava suas falhas
Ela não as deixava de apontar
Eles estavam chegando à exaustão
Ele acostumou-se demais a tê-la sua
Ela o amava demais pra virar-lhe as costas
Eles iriam até onde o sentir os levariam
Mas
Eles sabiam que não iriam tão longe...
Lai Paiva
14 de julho de 2013
Ele
Em tudo deveria ter um pouco de você
Todas as cores deveriam ser da cor dos seus olhos
Todo perfume deveria ter o cheiro do seu pescoço
Todo sabor deveria ser igual ao seu beijo
Todos os nomes deveriam começar com a letra do seu
Todas as músicas deveriam ter a melodia da sua fala
Toda poesia deveria ter aqueles versinhos que você diz sem poetizar
Toda vez que chovesse deveriam chover seus carinhos
Toda nova manhã deveria ter o seu rosto lindo no lugar do sol
Toda janela deveria ter a sua imagem através dela
Toda roupa que me veste deveria ser como seu abraço
Toda coberta deveria ter a textura da sua pele
Todo banho deveria ser quentinho como você
Toda barra de chocolate deveria vim com uma mordida sua
Todo inverno deveria vim acompanhado da sua presença
Todo sentimento deveria ter o seu sentido
Toda alegria deveria ter o seu sorriso
Todo afago deveria ser feito com as suas mãos
Todo coração deveria ter a forma dos seus lábios
Toda emoção deveria vim com seus arrepios
Toda xícara de café deveria ter você como adoçante
Todo filme deveria ser sobre o jeito único de ser você
Toda saudade deveria ser pra morrer em seus braços
Todo cuidado deveria ter a sua proteção
Todas as flores deveriam ser as begônias que você me deu
Todo o mundo deveria ser só você
Em tudo deveria mesmo era ter você inteiro...
Lai Paiva
3 de julho de 2013
Ainda Não
Eu ainda te desejo
Mas eu não te quero mais
Eu ainda te acho lindo
Mas eu não te admiro mais
Eu ainda sinto teu cheiro
Mas eu não te sinto mais
Eu ainda sonho com você
Mas eu não te idealizo mais
Eu ainda te beijo sozinha
Mas eu não te aprecio mais
Eu ainda te escrevo poemas
Mas eu não te destino mais
Eu ainda ouço canções por você
Mas eu não te escuto mais
Eu ainda me lembro de você
Mas eu não te eternizo mais
Eu ainda te vejo por vezes
Mas eu não te enxergo mais
Eu ainda te amo o bastante
Mas eu não te gosto mais
Lai Paiva
(en)fim
(Ilustração de Nicoletta Ceccoli)
Eu te amei sem perceber
Quando tudo entre nós
Já era amor
Eu te falei verdades doces
Que a ninguém mais revelei
Eu desejei dias sem fim
Pra renascer ao seu lado
Eu te guardei nos meus poemas
Pra te fazer eterno pra mim
Eu me entreguei sem receio algum
E só te queria assim
Eu me magoei sem sarar
E menti que não mais te queria
Mesmo sentindo teu beijo
Eu não posso mais ser-te
Ainda que haja o amor
Eu me sinto infeliz
Com o que você quer me dar
Eu não quero mais
Aquilo que você mente ter
Eu enfim aprendi chorando
Que me amar é mais que isso
E se não foi você a fazê-lo
Serei eu a amar-me sozinha
Lai Paiva
2 de julho de 2013
Sobre Cactos e o Amor
Todo
o mundo gosta de alguma coisa. Todo o mundo gosta muito de alguma coisa. Todo o
mundo é enamorado em demasia por algo. Eu sou por cactos. De todo tipo: palma,
mandacaru, cabeça de frade, etc. Eu os acho fortes, imponentes, e, mesmo
parecendo contraditório, apesar dos espinhos, eles conotam pra mim uma beleza
tão singela, tão tocante, que me faz passar muitos instantes a admirá-los.
Esqueço de contar o tempo quando estou frente a um. Parece que o tempo não
passa pra que eu não deixe de contemplá-los. Seja de que tipo ou tamanho
for. E, claro, eu tenho os meus próprios cactos na minha casa. Estão comigo há
anos, sob os meus cuidados e admiração. Gosto de ser surpreendida ao verificar
se está tudo bem e me deparar com seus novos espinhos nascendo. Pra mim é como
ver algo se renovando. Aqueles espinhos são o resultado do meu apreço, da minha
proteção, do meu cultivo. Isso me felicita tanto quanto qualquer outro momento de
contentamento maior. O amor é bem assim. Com espinhos e tamanha beleza. E, assim
como os cactos, o amor também precisa de terreno fértil e de cuidados
especiais, mas nada muito complexo. Por exemplo, no que concerne aos cactos, é
preciso atentar para o tamanho dos vasos. Se for muito pequeno pode acarretar a
asfixia das raízes, fazendo com que cresçam pouco ou nada, levando-os à morte.
Se for muito grande, consequentemente levará muita terra, o que aumentará a
absorção da água, fazendo com que as raízes apodreçam. O amor também precisa de
atenção. Amar não basta. É preciso cuidar do amor. É preciso uma dose diária de
estímulo, de incentivo, de enaltecimento, de atenção. Dispersar-se do amor, é matá-lo. E é
tão simples cuidar. O cuidado está nos pormenores. Ambos, amor e cactos, nascem,
crescem, morrem. Mas, enquanto vivos, têm o mesmo dom de fascinar, de nos pôr
em completo estado de torpor, de encantamento. Se a gente chegar muito perto do
amor, sem a cautela de saber como tocar, a gente se machuca, assim como
acontece com os cactos. E é possível, sim, tocar o amor, porque o amor tem a forma que a
gente dá pra ele, tem o nome que a gente dá pra ele. O nome próprio, a forma
inteira, ou a metade. Os cactos também têm diferentes formas. À nossa escolha,
embora a minha preferência seja por cactos, independente da forma. O amor tem contornos,
tem voz, embora não seja exatamente audível. Só aqueles sujeitos amorosos podem
ouvi-lo, visualizá-lo. Os cactos também só são vistos dentro da sua
grandiosidade de ser por quem tem olhos para tal. A forma de olhar é que mostra
ou oculta algo. Eu quero poder olhar pro amor como olho pros meus cactos todas
as manhãs. Enxergando seus detalhes pra saber como me aproximar. Eu quero mais
que isso. Quero me aproximar sem me machucar, nem com o amor, nem com os
cactos, pra poder ajudá-los a crescer, a dar continuidade aos seus ciclos. Quero
os meus cactos comigo em dias de sol e de chuva. Eu os colocarei no melhor
lugar, seja pra tomar sol, seja pra se esquivar da chuva. E nos vasos mais
apropriados. Quero o amor pra cuidar igualmente. Guardando no melhor lugar. Ao
lado dos meus cactos, ou ao lado da minha presença pra ir comigo aonde quer que
eu vá. Quero ambos na minha janela. E poder me sentir bonita como eles. Talvez
com alguns espinhos, mas com um amor enorme pra amar. Basta que me saibam
cuidar. Eu só desejo que haja mais tesouros assim, como cactos e amor, e
pessoas que possam tê-los em casa e na alma, cuidando pra não interromper
nenhuma etapa, nem matá-los. Eu desejo menos espinhos contundentes, mais amor irretocável. E
isso só depende de quem está cuidando. Porque o amor, assim como os cactos, são
pra gente aquilo que a gente os permite ser. E farão conosco, seja na janela ou
na alma, o que estivermos abertos a deixar que façam. A beleza está bem onde
eles estão. Bem à frente dos meus olhos, e porque não de outros? E eles são
lindos, mesmo quando, eventualmente, nos machucam. Por isso estarei sempre de
olhos bem abertos. E com a janela e a alma enfeitadas. Sempre!
Lai
Paiva
30 de junho de 2013
Já
Já amei tudo o que tinha pra amar-te
Já desejei todo o desejo pra ter-te
Já sonhei o suficiente pra viver-te
Já escrevi poesias mil pra cuidar-te
Já esperei tempo demais pra ser-te
Já doloridas vezes perdoei-te
Já me acabei por recomeçar-te
Já inúmeras vezes odiei-te
Já definitivamente desamei-te
Já não há mais nós, acabei-te
Lai Paiva
28 de junho de 2013
Tempo, tempo, tempo
No tempo certo
Tempo ao tempo
As horas que foram
Trarão novos dias
Instantes mais novos
E longe do agora
Que aqui onde estou
Minuto a minuto
Eu conto os ponteiros
Pro dia que avisto
Nascer mais suave...
Lai Paiva
23 de junho de 2013
Sobre Cebola e Desilusões
Sempre detestei cebola. A
textura, o cheiro, o gosto. E acho que estou inclusa numa grande parcela da
população mundial que compartilha do mesmo dissabor. A cebola é realmente digna
de desaprovação. E eu não poderia poupá-la de tal. Quem manda ser ruim? Tão
ruim que faz chorar quem a corta, manuseia. Com as desilusões acontece o mesmo,
só que, ao invés de as cortarmos, elas é que nos cortam, mas choramos, assim
como quando cortamos cebolas. As desilusões são ácidas, as cebolas, também. São
ambas indigestas. De gosto duvidoso e de efeito exato. A cebola marca o sabor
das coisas. Contamina, se sobressai sobre qualquer outro ingrediente. As desilusões,
também. Elas anulam os sorrisos dos
lábios, ocultam os suspiros de leveza, danificam a motivação e o ânimo. Sobressaem-se
até mesmo entre os mais fortes. Não há como uma receita, que contenha cebola,
ficar imune ao seu gosto forte. Não há como se imunizar contra as desilusões,
por mais que tantas outras já tenham sido vividas. Nenhuma papila digestiva está
aberta para recepcionar aquele sabor. Nenhuma alma está aberta para
desiludir-se. Acontece. Acontece de pegarmos de surpresa um pedaço de cebola no
meio de uma fatia de torta salgada e nos desencantarmos daquilo que estava tão
bom. Acontece de, no meio da felicidade, encontrarmos uma desilusão, que já
estava lá, no meio de tudo, escondida, à espera de ser descoberta. E aí é como
cortar cebolas. Lágrimas ácidas e cheiro característico. Aquele cheiro que a
tristeza tem. Por outro lado, apesar de detestar cebola, e, obviamente,
desilusões, preciso ser franca. Não sei se foi por causa do poder de persuasão
que talvez a cebola tenha, ou por algum outro motivo que eu desconheça, mas
preciso afirmar que adoro bife acebolado. Como assim? Não sei. É claro que,
depois de preparado, eu tiro as rodelas de cebola de cima pra me deliciar. E me
delicio. Assim, como quem ama cebola. É um momento antagônico. Quem o observa,
certamente pode afirmar que eu sou fascinada por cebola, tamanha a minha avidez
por aquele prato. Mas a verdade é que eu odeio cebola, só que eu adoro esse prato
que a contém e que foi contaminado pelo seu sabor e cheiro. Percebo que com
certas desilusões acontece o mesmo. Como se fosse uma desilusão pro bem. Um
divisor de águas. A partir daquela desilusão, tudo será melhor. Era preciso
vivenciá-las, ou melhor, sofrê-las, para alcançar o bem almejado. Porque as
desilusões ensinam, fortalecem, quando não matam. Sim, discordo de quem afirma que
se viveu uma ou outra desilusão. Não se as vive. As desilusões matam. Mesmo
quando ainda permanecemos vivos por um longo tempo. Elas são marcantes, assim como
a cebola. Ninguém quer desiludir-se, mas, às vezes, mesmo sem entendermos naquele
momento, é necessário, pra dar outro sabor aos dias. Como a cebola, que, sem
dúvida, deu um sabor diferente ao bife. Afinal, o que seria do bife acebolado
se não fosse a cebola? Um mal, se assim posso chamar, necessário. Como certas
desilusões. O que importa mesmo é o resultado final. Que tudo seja digestivo. O
bife, a tristeza. Importante é sentir que as lágrimas que as desilusões fazem
fluir serão momentâneas, que durarão apenas o tempo de cortar toda uma cebola.
Mas que depois virão outros suspiros e outras delícias. Pras papilas digestivas
e pra alma. Porque pra tudo há um propósito. Só precisamos descobrir. Eu só
descobri que adoro bife acebolado depois de enfrentá-lo, de experimentá-lo,
mesmo contra minha vontade. E descobri que algumas desilusões vieram pros meus
dias pra que eu tivesse dias melhores ao passar por elas. Então eu resolvi
enfrentá-las e experimentá-las, mesmo contra minha vontade. Porque, muitas
vezes, nem tudo o que parece desgostoso o é totalmente. É só uma questão de
sentir de outra forma.
Lai Paiva
18 de junho de 2013
Sobre Beijo e Chocolate
Pra certas coisas há outras
coisas pra assemelhar. Dentre essas coisas pensei no beijo. Daqueles beijos de se
querer beijar sem fim. Daqueles beijos de turvar os olhos e acelerar os
batimentos cardíacos, a ponto de senti-los ecoar no peito de outro alguém. Um
beijo de inflar os lábios, de umedecê-los, de causar calor e despertar amor. Um
beijo de liberar substâncias mágicas, de correr o corpo e terminar na alma. De
um sabor que não se esquece nunca. De uma textura de não querer largar. Assim
como o chocolate. Posto na boca, por entre os lábios, como num beijo, causa
leveza e encantamento por seu sabor. Age suave, mas com a certeza de inebriar a
quem o toca. Aquele gosto, do mesmo gosto do beijo alheio, de um bem querer,
que faz querer muito. Mais de um beijo, uma barra grande de chocolate. Branco
ou preto. Ao leito ou amargo. Selinho ou de língua. Dado ou roubado. O mesmo
arrepio. O mesmo suspiro. Pupilas dilatadas e o esquecer de respirar. Endorfinas
que apaixonam. Sensação que vicia. Liberdade pra sentir-se bem. Um cheiro pra
viver recordando. Saliva e cacau. Hálito e açúcar. Desejo e moderação. Calorias
e derretimento. É o beijo derretendo o prazer por dentro. E o chocolate
misturando os sentidos. Dedos marcados por tamanha delícia. Lábios que beijam
esses mesmos dedos. Vestígios que fazem querer mais. A boca pra comer de novo.
A língua pra amaciar seu tom. O olfato pra se enamorar. Uma barra inteira num
instante único. Um beijo longo pra uma vida toda. E se estiverem juntos há de
ser maior que os olhares digam. Um perturbando o outro. De um perturbar macio.
De um transpirar gostoso. Uma mistura íntima de ingredientes pra um sentir
incomum. Na boca de quem a boca der para ser beijada. Beijos como chocolates.
Derretidos naquela vontade. Uma vontade de sentir por horas, de durar um século,
aquela maravilha de proporcionar ao corpo o sair de si pra entrar no outro, enquanto
os lábios forem aquelas doces margens, que permeiam o apreço misturado ali. E depois
levam à saudade. Um voltar de novo a beijar profundo o beijo exato pro
contentamento. O chocolate de outrora, que se tornou líquido no saborear de
quem o devorou. Em seguida a ânsia pela redundância daqueles instantes de chocolate
e beijo. Que é por cada um e pelos dois iguais que a boca pede já inebriada e tão
desejosa de provar de novo a grandiosidade daquele efeito que só ambos causam, até
pelo avesso, no minuto exato em que os lábios rendem-se àquela semelhança de
entorpecer como quase nada há de fazer igual.
Lai Paiva
4 de junho de 2013
Sobre pessoas e palavras
Certa vez, não sei exatamente quando, como e nem o motivo, eu parei tudo e me perguntei se existem mais pessoas ou mais palavras no mundo... Desisti em seguida de pensar sobre isso. Foi então que preferi ater-me a encontrar as semelhanças entre elas.
Todo dia nascem tantas pessoas novas, mas também morrem outras tantas. As palavras não nascem diariamente, eu acho, mas também não morrem frequentemente. Algumas palavras saem de uso, ou tornam-se raras. As pessoas, também. Saem de uso quando morrem. Tornam-se raras à medida que envelhecem, adoecem, perdem o vigor e a proatividade. As pessoas usam as palavras, mas estas, sem dúvida alguma, também as usam. Há quem tenha mais palavras em seu vocabulário usual do que pessoas em seu convívio. As pessoas falam demais. As palavras talvez falem ainda mais. As pessoas têm identidade, as palavras, também. Há pessoas semelhantes, pessoas plurais, pessoas singulares, pessoas simples e pessoas complexas. Assim como as palavras. As palavras são resultante da união de sílabas, que resultam da união de letras. As pessoas resultam da união/relação, mesmo que momentânea, de duas pessoas, ou da união de duas células, que corresponderiam às sílabas. Cada palavra carrega com ela o seu significado, ou os seus significados, a sua relevância, o seu valor. Ela é escrita ou falada com algum objetivo. E geralmente ela o atinge. As pessoas também têm os seus valores e sempre significam algo. Ninguém está aqui por acaso, ainda que algumas pessoas se sintam assim eventualmente. As pessoas são ricas. Ricas de tesouros internos. Uns descobertos, outros, ocultos. As palavras também. Quando explícitas, mostram logo porque ali estão, mas às vezes se escondem nas entrelinhas. Algumas pessoas também tendem a se mostrar pouco. Nos dois casos imagino que seja precaução ou embelezamento. Sim, pois fica bonito um texto em que se lê algo nas entrelinhas, se descobre algo que não foi descrito claramente. Com as pessoas também é assim. É mais atrativo ir descobrindo uma pessoa aos poucos. Pessoas enigmáticas podem ser preferíveis. Imagino uma pessoa sendo tratada como palavra de difícil pronúncia e grafia, que é preciso soletrá-la para escrevê-la corretamente. Letra por letra. Do início, lentamente, até o fim. A partir dos olhos, passando lentamente por cada parte falante do seu corpo, até os dedos dos pés. Domando o medo de errar. Absorvendo a certeza da escrita, ou da descrita. É excitante. As palavras são excitantes. Este não é um dom restrito às pessoas. Elas carregam tanto. Imprimem tanto. Uma mesma palavra pode ser doce ou amarga, depende apenas de quem a está escrevendo ou falando. Eu admiro a força que elas têm. As palavras. E as pessoas, claro. Há pessoas doces que escrevem palavras contundentes de forma irretocável. Assim como pessoas ácidas podem escrever palavras brandas. Na verdade é como se elas pincelassem as palavras, porque elas já têm aquela forma. O conteúdo, a personalidade é que é dada. Sim, as palavras têm personalidade. Eu sempre mantive uma relação muito estreita com elas. Mais que com as pessoas, confesso. As palavras me dão uma liberdade que ninguém me deu. Quando as escrevo eu posso ser eu mesma, sem pudor algum. Com as pessoas a gente sempre precisa se podar um pouco. Ninguém é completamente o que é, quando está com os outros, embora ninguém admita. Escrevendo, sim, a gente vira ao avesso. As palavras me usam e eu as uso, e ninguém sai perdendo com isso, como acontece quando as pessoas se usam. E eu sou consciente de que escrever é uma responsabilidade tamanha, pois é a referência que estou conotando em cada palavra. Embora ela já tenha o seu significado, eu, enquanto escritora, estou fortalecendo a sua imagem, o seu peso, o sentido que ela carrega. A emoção, o sentimento, a tradução. Poucas pessoas são abertas à moldar-se assim. Sim, é um risco. Podemos, todos nós, fazer mal uso das palavras e reduzi-las à nada. Podemos querer e tentar mudar algo nas pessoas que julgamos necessário, mas na realidade não são, e podem até torná-las menores do que são. As pessoas erram. Assim como as palavras podem se apresentar erroneamente. É a vida. A nossa e a delas. O bom é que estaremos juntos por todo o tempo. As palavras não vão deixar de existir antes das pessoas. E nem o inverso. Estaremos todos convivendo juntos. Passíveis de sermos escolhidos ou negligenciados. Até lá é melhor nos esforçarmos pra continuar causando uma boa impressão. As pessoas às palavras, e estas àquelas. Pois enquanto houver um último suspiro, haverá sempre a última palavra.
Lai Paiva
30 de maio de 2013
Amo
(Ilustração Jana Magalhães)
Eu te amo hoje
Pelo amor de ontem
Por cada dia seguinte
Com o amor de sempre
Reafirmado a cada hora
Nas horas em que estou
Te amando por toda vida
Lai Paiva
28 de maio de 2013
Ímpar
(Ilustração de Nicolleta Ceccoli)
Todo mundo tem um par
Todo par tem um porquê
E porque estou tão ímpar
Sinto o tempo não passar
Passo os dias esperando
A ausência ir embora
Ir embora do meu lado
Que as horas são mais longas
Pra quem vive tão sozinha
Lai Paiva
26 de maio de 2013
Poética
(Ilustração Nicoletta Ceccoli)
Na minha alma levo a poesia
Pra poesia eu me reinvento
Sou tantas quanto tantos versos tenho
A descrever o que trago em mim
Só tenho isso atrás dos meus olhos
E no interior do silêncio meu
A deixar aqui quando for pra longe
O lugar mais longe que eu posso ir
De onde a poesia me faça acenar
Aos que hão de ler os versos que eu deixei
Beijando todos como tanto fiz
Enquanto alma eu tinha no meu peito
Lai Paiva
Eu
O estar sem é tão só
O estar só é tão meu
O ser eu é tão grande
O estar em mim é tão pouco
O pouco me incompleta
O que falta me guarda
O que guardo sou eu
O que sou, solidão
Lai Paiva
24 de maio de 2013
Adiado
O amar ficou pra depois
Pro amor guardo o esperar
Sem sentir o sentir se esvai
E no final o que acabou
Já havia me dito não
Enquanto me era um sim
Lai Paiva
21 de maio de 2013
Quanto ao tempo
E o tempo não me espere nem dois minutos
Eu hei de aguardar pra vivê-lo depois
Ainda que a vida seja o momento que tenho
E que o ponha distante de mim
Eu manterei um coração no meu peito
Ainda que tudo aconteça lá fora
E que eu sinta o tempo envelhecendo
Eu sei que ainda há um tempo oportuno
Que eu possa chamá-lo de meu...
Lai Paiva
18 de maio de 2013
Em segurança
Seguro é estar só
Sem olhares alheios
Nem abraço no corpo
O outro é um risco
Que adoça o perigo
Num pequeno instante
De um piscar de olhos
Tranquilo é guardar
O ser tão de alguém
Pra não sê-lo em vão
E ter os sorrisos molhados
Protegido é o sentir
Que não se dá sem se ter
Que se guarda seguro
Onde quer que seja
Mas que seja mesmo
Dentro de si...
Lai Paiva
5 de maio de 2013
Boa noite
Se não adormecer
Me escreva
Se dormir
Sonhe comigo
Sonhe comigo
Quando amanhecer
Apaixone-se de novo por mim
Apaixone-se de novo por mim
Durante o dia
Não me perca mais
Não me perca mais
Quando anoitecer
Me ponha pra dormir no seu coração
Me ponha pra dormir no seu coração
Então me ame sob o olhar das estrelas
E o silêncio da nossa saudade...
E o silêncio da nossa saudade...
Lai Paiva
2 de maio de 2013
Querendo
Quero um pensar livre
Uma liberdade suave
Alegria pra brilhar
Saudade pra morrer
Um amor amável
Dias de durar um ano
Horas de beijar nos lábios
Abraços de acolher a alma
Versos de sorrisos altos
Músicas dos suspiros meus
Vida pro meu coração
Mãos pra tapar meus olhos
Cura pros meus desenganos
Ternura pra dormir comigo
Certeza de alguma coisa
Nome pro contentamento
Razão pra sonhar de novo
Sonhos pra tornar real
Um bem pra chamar de meu...
Lai Paiva
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