9 de novembro de 2013

De mãe para filho


Não se apresse em crescer
Nem se eternize tão jovem
Distribua infinitos sorrisos
Pros meus olhos nunca esquecerem
Beije os seus beijos amáveis
Que é tudo o que quero da vida
Divida seus sonhos e medos
Deixe-me sentir com você
Lembre de jamais me esquecer
Passe muito tempo comigo
Inspire-me a viver melhor
E a ser maior que o mundo
Guarde bem o meu coração
Que sempre será todo seu
Assim como todo esse amor
Que me põe tão mais bonita
Aos olhos de quem possa enxergar
Uma mãe apaixonada assim


Lai Paiva




8 de novembro de 2013

Felicidade (Yago)


Feliz de mim
Que tenho você
Feliz de você
Que é tão completo
Feliz do amor
Que está entre nós
Felizes nós dois
Que vivemos juntinhos
Feliz da minha vida
Que você dá sentido


Lai Paiva


2 de novembro de 2013

Minha melhor exceção, Yago.


Qualquer um pode me achar feia
Exceto você
Qualquer cheiro é igual a muitos
Exceto o cheiro dos seus cabelos
Qualquer dia pode não amanhecer
Exceto se você estiver comigo
Qualquer beijo pode faltar às maçãs do meu rosto
Exceto aquele que vem dos seus lábios
Qualquer excelente filme é pouco atrativo
Exceto se for vê-lo com você
Qualquer companhia pode ausentar-se da minha presença
Exceto a sua companhia perfeita
Qualquer medo é completamente vencível
Exceto o de ficar sem você
Qualquer amor cantado ou poetizado é tão pouco
Exceto o amor que você fez nascer em mim
Qualquer delícia de guloseima é sem graça
Exceto se for dividir com você
Qualquer sorriso lindo uma hora perde seu brilho
Exceto o seu
Qualquer momento dura tão pouco
Exceto aqueles momentos em que nos abraçamos
Qualquer um pode me deixar só
Exceto você
Qualquer coisa pode acabar 
Exceto nós dois dentro de cada um
Qualquer medida pode ser mensurável
Exceto a medida da sua importância pra mim...


Lai Paiva




6 de outubro de 2013

Essência


As pessoas são feitas de tudo
E de quase tudo sou feita
De cactos, leguminosas e begônias
De sopa, brócolis e peixe grelhado
De suco de uva, café com leite e molho barbecue
De chocolate, petit gateau e chocotone
De bichos de pelúcia, de porta retratos e almofadas
De banho morno, de meia nos pés, de máscara pra dormir
De estampa de bichos, de saia longa, de sapatilhas
De música popular brasileira, de poesia, de biografias
De chuva, de lua, de perseguir paisagens
De arrepio, de choro emocionado, de palavras
De beijo no canto da boca, de abraço demorado, de olhos fechados
De contos, de crônicas, de cartas de amor
De sono prolongado, de cobertas, de friozinho
De filmes na cama, de cinema, de pipoca com guaraná
De trabalho desafiador, de aprendizados constantes, de reconhecimento
De amigos de verdade, de carinhos comoventes, de sentimentos externados
De coisas simples, de desejos grandes, de falhas incontáveis
De esperanças renováveis, de desilusões guardadas, de muita fé
De começos, de recomeços, de "para sempre"
De Yago, mais do que de qualquer outra pessoa
Até que eu seja desfeita.


Lai Paiva





25 de setembro de 2013

Cartinha de Amor



Se ainda lhe pudesse chamar de amor, eu, daqui do outro lado do nosso distanciamento, eu beijaria cada canto dos seus lábios, bem no local onde lembro que eles se uniam pra me dizer qualquer palavra que me soasse como versinhos recitados. Eu buscava avidamente qualquer sentimento seu pra sentir que era meu. E eu sentia. Por todo o tempo em que duravam os nossos abraços. Pra ter você pra mim eu precisei sonhar. Eu escrevia pra você e relia, pra poder inventar um jeito de lhe sentir comigo. Era a minha maneira de conseguir dormir sem você e de abrandar a angústia de não poder ver os seus olhos lindos mudando de cor ao olhar pra mim com aquelas intenções que eu amava tanto. Nem sei do que mais sinto falta: se de olhar pra você ou pra mim depois de ter você nos meus beijos. Nem sei onde guardar essa saudade inteira. Na verdade ela nunca coube em lugar algum. No minuto seguinte à despedida, ela já se fazia presente e indomável. Tudo o que sei é que eu ainda te amo. Só que agora amo em silêncio. E esta é apenas umas das certezas que você me deixou. Quem dera você ainda estivesse aqui para eu contar o quanto penso em nós e para lhe mostrar que ainda me enfeito por dentro, mais que por fora, pra talvez lhe encontrar do lado de fora das minhas lembranças mais doces. Estas de agora e de sempre.


Lai Paiva

22 de setembro de 2013

A saudade é do tamanho do mar, o amor pode ser ainda maior


Certas certezas
Só se tem uma vez
Certas pessoas
Só se completam com outras
Certas lembranças
Só se guardam pra si
Certas saudades
Só se avolumam mais
Certos amores
Só se amam pra sempre
Certos "pra sempre"
Só se eternizam nos sonhos...


Lai Paiva


12 de setembro de 2013

Tempestade



Tanta coisa acontecendo dentro daquela moça. E ninguém percebia. E ninguém a olhava por trás dos seus olhos aflitos. Chovia torrencialmente bem dentro dela. E os seus sentimentos escorriam por entre as frestas que só ela sabia que estavam abertas. Frestas que foram abertas onde deveriam ter sido plantadas suas flores preferidas. Bem da cor e do cheiro que ela adorava. Por entre cada parte dela, cada parte que a chuva de agora diluía. Sim, ela estava se tornando líquida. E tudo ao redor permanecia como estava. Alheio à sua mudança de estado. Como se ela fosse, não uma tempestade inteira, mas apenas uma gota. E talvez ela de fato quisesse ser apenas uma gota pra sentir tão pouco tudo aquilo que sentia se avolumar cada vez mais. Todo aquele sentir exacerbado e contra o qual ela lutava intimamente para não deixar transbordar. Uma luta em vão, pois que era em vão lutar contra sua natureza em sentir e mostrar-se imersa naquilo tudo. Por isso ela chovia. Chovia mesmo. Com ventania, trovões e relâmpagos. E mesmo assim ninguém percebia. Porque ela era silenciosa. Amava em silêncio. Sofria em silêncio. Sonhava em silêncio. Vivia em silêncio. E acho que iria estar assim até sua última gota. E ainda assim o sol permaneceria reluzente pra todos do lado de fora dela...


Lai Paiva

8 de setembro de 2013

O amor não é mais como antigamente


Tempo. Com o tempo a gente aprende que o tempo não é essa coisa mutável e que conserta tudo, que alinha, que norteia. As pessoas é que o transformam. Dias melhores ou piores são consequências não das horas, mas dos atos ou da ausência deles. E as horas duram o tempo que se sabe absorver delas. Já o amor, esse sim vem mudando desde bem antes de eu ter nascido. Desde a primeira vez que se ouviu falar nele. Desde que as primeiras pessoas o disseram, o sentiram, o viveram. O amor de hoje não é mais aquele de outrora. Era mais firme, embora suave. Mais doce, embora alguém, eventualmente, esquecesse de adoçar. Não se vê nem se ouve falar em amores como os de antigamente. Aquele amor com identidade própria, emoldurado por uma conquista admirável, dosada, verdadeira. Com o intuito único de ser e de fazer alguém feliz. Aquele amor que começava na infância, muitas vezes, e não terminava nem quando acabava a vida. Aquele amor que era quente e urgente na juventude, e amigo e terno, na maior idade. Aquele amor que guardava o respeito com todo o cuidado. O amor que se via nos olhos mais tímidos, e nos gestos mais simples. Nos presentes singelos, nas declarações de amor silenciosas, porém, maravilhosamente expressivas. Um amor que curava, que abrandava as dores, que iluminava os dias escuros, que proporcionava uma cumplicidade que não poderia haver igual. Um amor que era tudo, a delícia da vida, a beleza dos instantes, a razão do contentamento. Aquele amor não é dos dias de hoje. Ele persiste, mas no interior de quem nasceu lá: há muito tempo atrás. Salvo algumas exceções, claro. Só pra não fugir à regra. O sentimento de hoje, que não deixa de ser amor, é quebradiço, frágil, e está sempre precisando de retoques. As declarações de amor são vagas e, muitas vezes, mentem, porque é mais fácil obter alguns prazeres quando se fala em amor. Porque há sempre quem acredite em amores de mentira. Viver sem isso é mais árduo, nos dias de hoje. Então a gente acaba amando quem não inspira amor, ou acreditando que somos amados mesmo com alguma dúvida. A gente se torna negligente e acredita em qualquer coisa que queríamos que fosse amor. Eu queria mesmo era ser do tempo em que amar valia a pena. E que as pessoas mereciam ser amadas. Eu queria mesmo era não estar amando neste momento. Guardar este amor inteiro que há em mim pra quem sabe se um dia vierem dias pra se amar como antes. Como antigamente. E mesmo que eu já nem tenha mais idade pra cuidar de outra pessoa, e sim pra ser cuidada, ao menos eu possa preparar um café da manhã, fazer a dor de alguém sarar, e os olhos sorrirem felizes, ao beijar os lábios com meus "eu te amo" verídicos. Desses que até hoje jamais ouvi. Desses que eu disse com toda a verdade que tenho, mesmo eu não sendo alguém de antigamente. Mesmo sabendo que o amor já não é como antes e que o tempo de amar de agora já não me engana mais. Porque já conheço todas as ilusões que a gente ousa chamar de amor pra não amar sozinha. E o tempo não conserta mais isso.


Lai Paiva



7 de setembro de 2013

A Morte do Jardim Secreto



Há muito tempo atrás havia uma garota especial naquela rua. No fim da rua. Onde as casas terminavam de tomar formas. Onde os passos de quem por ali andava tinham que terminar. E houve um tempo pra tudo dentro daquela garota. Tempo de chuvas torrenciais. Tempo de sol a pino. Tempo de folhas no chão. Tempo de flores e perfume no ar. Tempo de cores misturadas. Tempo incolor.  Tempo de galhos. Tempo de espinhos. Tempo de pétalas. Não à toa ela era observada com estranheza. Não incompreensivelmente ela encontrava-se sozinha. Todos a temiam. Não por causa da sua voz, do seu olhar, ou dos seus gestos. Mas porque ela era intrigante. E rara. Não parecia semelhante aos seus semelhantes. Ela fugia às regras. Ela era diferente. De uma maneira que mal se podia expressar. Mais que isso, ela trazia algo diferente e incomum dentro de si. E era um segredo enorme. Lindo. Um segredo plantado e sensível. Ela trazia um jardim inteiro consigo. De flores, pequenas árvores, cactos. Com terra firme e cheiro constante de vida. Uma mistura encantada de tons e texturas. Bem cuidadas e acarinhadas dia a dia. Aquele jardim nascera no lugar do seu coração. E pulsava tal qual ele. Com ramificações que levavam a cada parte do seu corpo o tom ideal, o movimento, o viver. E havia flores tão lindas. De uma beleza que nunca se podia esquecer. De uma diversidade tamanha, que só ela poderia registrar. Misturadas aos espinhos singelos dos cactos que se escondiam no meio daquelas pétalas. Era um jardim maravilhosamente numeroso, povoado. E estava bem ali dentro dela. Pros olhares dela. Pro cuidado dela. Pros sentimentos dela. Onde poucos estiveram a olhar. Quase ninguém a compreender. E uma única pessoa a poder tocar. Uma única pessoa. Pra quem ela entregou suas flores. Por quem ela enfeitou janelas e varandas. E ruas inteiras. Sem saber-se perdida e acometida por aquele pequeno suicídio diário, com um nome próprio, que ela plantou dentro dela, que ela amou como a cada flor daquele jardim, com o mesmo desejo de perpetuar aquele sentir, com a mesma tristeza ao saber que as melhores e mais belas coisas são as que primeiro acabam. Como aquele jardim, que ninguém  mais possuía igual. Como aquele amor, que nunca mais amaria igual.




Lai Paiva


28 de agosto de 2013

Assim


Leio livros
Escrevo amores
Ouço canções
Canto pras flores
Planto ilusões
Coleciono cores
Visto mil sensações
Transformo os dissabores
Dispo-me das recordações
Pra enfeitar meus valores


Lai Paiva

25 de agosto de 2013

Apenas Isso


Morra mil vezes este amor
Acabe-se antes de mim
Limpa a lembrança de outrora
Mova-se a saudade amarga
Prepara a poesia seguinte
Livre-se do que ressecou
Viva depois de amar
Ame-se e a quem merecer


Lai Paiva


19 de agosto de 2013

Depois



Depois de amar
Pra que o amor
Depois de viver
Pra que poetizar
Depois de ter
Pra que anoitecer
Depois de ser
Pra que acabar
Depois de nós
Pra que recordar...


Lai Paiva

11 de agosto de 2013

Dia dos Pais


P orque perto eu preciso que esteja
A inda que palavra alguma me diga
I nsisto em vê-lo na solidão dos meus dias


Lai Paiva

4 de agosto de 2013

Pra Agora



Não do amor
Eu desisto de amar
Não de viver
Eu desisto da espera
Não de sonhar
Eu desisto do engano
Não de ser sua
Eu desisto da solidão
Não de namorar
Eu desisto da traição
Não da esperança
Eu desisto da mágoa
Não de você
Eu desisto de nós
Não da boca pra fora
Eu desisto pra sempre...


Lai Paiva

26 de julho de 2013

À Espera


Saudade da saudade dele
Vontade da ansiedade nossa
Ávida por meus beijos nele
Desejosa do que somos juntos
Apaixonada pela paixão minha
Esperando que ele volte meu
Dos quilômetros que não quero nossos...


Lai Paiva

21 de julho de 2013

Ele e Ela


Eles foram ao mesmo evento naquele dia
Ela o olhou com aprovação
Ele elogiou a beleza da amiga
Eles não esticaram a noite na creperia 
Ele pegou o número do telefone dela
Ela não disse coisa com coisa ao ouvi-lo
Eles desligaram achando que não mais ligariam
Ele recebeu uma mensagem dela com surpresa
Ela queria causar boa impressão
Eles começaram a trocar mensagens
Ele a enchia de uma ansiedade gostosa
Ela o fazia amanhecer mais alegre
Eles estavam se conquistando aos pouquinhos
Ele lhe mandava canções de "presente"
Ela lhe escrevia poemas singelos
Eles já estavam enamorados
Ele a enviou as mais belas flores
Ela mandou-lhe cartões com fotos dela
Eles eram um presente um pro outro
Ele foi ao Shopping sem sabê-la lá
Ela propôs encontrá-la na loja em que estava
Eles tiveram o primeiro encontro na loja de bichos de pelúcia
Ele anoitecia pensando nela
Ela amanhecia sonhando com ele
Eles passavam as horas acarinhando um ao outro
Ele não suportava mais o desejo em beijá-la
Ela sucumbiu ao seu pedido de vê-la
Eles se beijaram no primeiro semáforo fechado
Ele estava lindo naquela euforia invencível
Ela já estava apaixonada pelos seus olhos raros
Eles se amaram como se fossem morrer de amor
Ele não conseguia deixá-la de volta em casa
Ela não queria mais perdê-lo de vista
Eles foram perfeitos naquela noite
Ele a deixava cada vez mais encantada
Ela vivia deixando-o saudoso dela
Eles logo se disseram "eu te amo"
Ele foi por muitos meses seu par ideal
Ela o fez ter dias melhores
Eles pareciam maiores que o tempo
Ele aos poucos foi causando tristeza
Ela muitas vezes teve que maltratá-lo
Eles estavam perdendo a harmonia
Ele mentia como quem conta verdades
Ela demorou a acreditar nas evidências
Eles minaram o respeito um do outro
Ele cometeu os piores erros
Ela o perdoou por amor em demasia
Eles resolveram tentar ficar juntos
Ele nunca mais foi aquele de antes
Ela já não se sentia a mesma
Eles estavam se distanciando sem ver
Ele traiu seu amor e lealdade
Ela o tratou da forma mais contundente
Eles sentiram que tudo estava perdido
Ele insistia em dar-lhes outra chance
Ela acatou seu pedido por vezes
Eles não sabiam mais ser como eram
Ele a fazia voltar ao beijá-la
Ela o fazia feliz em silêncio
Eles queriam ter sido perfeitos
Ele era o céu e o inferno dela
Ela era a flor e o espinho dele
Eles já não se reconheciam
Ele a estava frustrando demais
Ela o estava descontentando também
Eles não eram mais a paixão de outrora
Ele não enxergava suas falhas
Ela não as deixava de apontar
Eles estavam chegando à exaustão
Ele acostumou-se demais a tê-la sua
Ela o amava demais pra virar-lhe as costas
Eles iriam até onde o sentir os levariam
Mas
Eles sabiam que não iriam tão longe...


Lai Paiva




14 de julho de 2013

Ele



Em tudo deveria ter um pouco de você
Todas as cores deveriam ser da cor dos seus olhos
Todo perfume deveria ter o cheiro do seu pescoço
Todo sabor deveria ser igual ao seu beijo
Todos os nomes deveriam começar com a letra do seu
Todas as músicas deveriam ter a melodia da sua fala
Toda poesia deveria ter aqueles versinhos que você diz sem poetizar
Toda vez que chovesse deveriam chover seus carinhos
Toda nova manhã deveria ter o seu rosto lindo no lugar do sol
Toda janela deveria ter a sua imagem através dela
Toda roupa que me veste deveria ser como seu abraço
Toda coberta deveria ter a textura da sua pele
Todo banho deveria ser quentinho como você
Toda barra de chocolate deveria vim com uma mordida sua
Todo inverno deveria vim acompanhado da sua presença
Todo sentimento deveria ter o seu sentido
Toda alegria deveria ter o seu sorriso
Todo afago deveria ser feito com as suas mãos
Todo coração deveria ter a forma dos seus lábios
Toda emoção deveria vim com seus arrepios
Toda xícara de café deveria ter você como adoçante
Todo filme deveria ser sobre o jeito único de ser você
Toda saudade deveria ser pra morrer em seus braços
Todo cuidado deveria ter a sua proteção
Todas as flores deveriam ser as begônias que você me deu
Todo o mundo deveria ser só você
Em tudo deveria mesmo era ter você inteiro...



Lai Paiva





3 de julho de 2013

Ainda Não



Eu ainda te desejo
Mas eu não te quero mais
Eu ainda te acho lindo
Mas eu não te admiro mais
Eu ainda sinto teu cheiro
Mas eu não te sinto mais
Eu ainda sonho com você
Mas eu não te idealizo mais
Eu ainda te beijo sozinha
Mas eu não te aprecio mais
Eu ainda te escrevo poemas
Mas eu não te destino mais
Eu ainda ouço canções por você
Mas eu não te escuto mais
Eu ainda me lembro de você
Mas eu não te eternizo mais
Eu ainda te vejo por vezes
Mas eu não te enxergo mais
Eu ainda te amo o bastante
Mas eu não te gosto mais


Lai Paiva

(en)fim



(Ilustração de Nicoletta Ceccoli)



Eu te amei sem perceber
Quando tudo entre nós
Já era amor
Eu te falei verdades doces
Que a ninguém mais revelei
Eu desejei dias sem fim
Pra renascer ao seu lado
Eu te guardei nos meus poemas
Pra te fazer eterno pra mim
Eu me entreguei sem receio algum
E só te queria assim
Eu me magoei sem sarar
E menti que não mais te queria
Mesmo sentindo teu beijo
Eu não posso mais ser-te
Ainda que haja o amor
Eu me sinto infeliz
Com o que você quer me dar
Eu não quero mais
Aquilo que você mente ter
Eu enfim aprendi chorando
Que me amar é mais que isso
E se não foi você a fazê-lo
Serei eu a amar-me sozinha


Lai Paiva


2 de julho de 2013

Sobre Cactos e o Amor



Todo o mundo gosta de alguma coisa. Todo o mundo gosta muito de alguma coisa. Todo o mundo é enamorado em demasia por algo. Eu sou por cactos. De todo tipo: palma, mandacaru, cabeça de frade, etc. Eu os acho fortes, imponentes, e, mesmo parecendo contraditório, apesar dos espinhos, eles conotam pra mim uma beleza tão singela, tão tocante, que me faz passar muitos instantes a admirá-los. Esqueço de contar o tempo quando estou frente a um. Parece que o tempo não passa pra que eu não deixe de contemplá-los. Seja de que tipo ou tamanho for. E, claro, eu tenho os meus próprios cactos na minha casa. Estão comigo há anos, sob os meus cuidados e admiração. Gosto de ser surpreendida ao verificar se está tudo bem e me deparar com seus novos espinhos nascendo. Pra mim é como ver algo se renovando. Aqueles espinhos são o resultado do meu apreço, da minha proteção, do meu cultivo. Isso me felicita tanto quanto qualquer outro momento de contentamento maior. O amor é bem assim. Com espinhos e tamanha beleza. E, assim como os cactos, o amor também precisa de terreno fértil e de cuidados especiais, mas nada muito complexo. Por exemplo, no que concerne aos cactos, é preciso atentar para o tamanho dos vasos. Se for muito pequeno pode acarretar a asfixia das raízes, fazendo com que cresçam pouco ou nada, levando-os à morte. Se for muito grande, consequentemente levará muita terra, o que aumentará a absorção da água, fazendo com que as raízes apodreçam. O amor também precisa de atenção. Amar não basta. É preciso cuidar do amor. É preciso uma dose diária de estímulo, de incentivo, de enaltecimento, de atenção. Dispersar-se do amor, é matá-lo. E é tão simples cuidar. O cuidado está nos pormenores. Ambos, amor e cactos, nascem, crescem, morrem. Mas, enquanto vivos, têm o mesmo dom de fascinar, de nos pôr em completo estado de torpor, de encantamento. Se a gente chegar muito perto do amor, sem a cautela de saber como tocar, a gente se machuca, assim como acontece com os cactos. E é possível, sim,  tocar o amor, porque o amor tem a forma que a gente dá pra ele, tem o nome que a gente dá pra ele. O nome próprio, a forma inteira, ou a metade. Os cactos também têm diferentes formas. À nossa escolha, embora a minha preferência seja por cactos, independente da forma. O amor tem contornos, tem voz, embora não seja exatamente audível. Só aqueles sujeitos amorosos podem ouvi-lo, visualizá-lo. Os cactos também só são vistos dentro da sua grandiosidade de ser por quem tem olhos para tal. A forma de olhar é que mostra ou oculta algo. Eu quero poder olhar pro amor como olho pros meus cactos todas as manhãs. Enxergando seus detalhes pra saber como me aproximar. Eu quero mais que isso. Quero me aproximar sem me machucar, nem com o amor, nem com os cactos, pra poder ajudá-los a crescer, a dar continuidade aos seus ciclos. Quero os meus cactos comigo em dias de sol e de chuva. Eu os colocarei no melhor lugar, seja pra tomar sol, seja pra se esquivar da chuva. E nos vasos mais apropriados. Quero o amor pra cuidar igualmente. Guardando no melhor lugar. Ao lado dos meus cactos, ou ao lado da minha presença pra ir comigo aonde quer que eu vá. Quero ambos na minha janela. E poder me sentir bonita como eles. Talvez com alguns espinhos, mas com um amor enorme pra amar. Basta que me saibam cuidar. Eu só desejo que haja mais tesouros assim, como cactos e amor, e pessoas que possam tê-los em casa e na alma, cuidando pra não interromper nenhuma etapa, nem matá-los. Eu desejo menos espinhos contundentes, mais amor irretocável. E isso só depende de quem está cuidando. Porque o amor, assim como os cactos, são pra gente aquilo que a gente os permite ser. E farão conosco, seja na janela ou na alma, o que estivermos abertos a deixar que façam. A beleza está bem onde eles estão. Bem à frente dos meus olhos, e porque não de outros? E eles são lindos, mesmo quando, eventualmente, nos machucam. Por isso estarei sempre de olhos bem abertos. E com a janela e a alma enfeitadas. Sempre!



Lai Paiva