30 de outubro de 2012

Sou-me




(Ilustração - Fábio Dudas)

Minha, não sou de ninguém
Não sendo, basto-me
Certa que sou inabitável
Nenhum nome próprio
Unirá as minhas lacunas
Pra mentir que há quem possa
Me levar de dentro de mim
Sem que eu me machuque lá fora...

Lai Paiva


28 de outubro de 2012

Por ele, tudo


De nada serviriam meus lábios
Se não fossem teus beijos

Pra que perfumar um abraço
Se não for pra ser teu

De nada valeria um carinho
Se não pra tocar o teu rosto

Pra que uma tórrida paixão
Se não for pra vivê-la em teu corpo

De nada convence o amor
Se não for pra unir-nos assim

Pra que todo esse sentir
Se não for viver-te pra sempre


Lai Paiva

12 de outubro de 2012

Poeminha de Esquecimento


Saudades eu tenho
De quando saudades 
Não tinha
Vontade eu tenho
De pouco ou nada
Vontade ter
Sentido eu tenho
Aquilo de não mais
Poder ter sentido
Esquecer eu quero
O tanto que lembro
De que me esqueceu...

Lai Paiva



7 de outubro de 2012

Sem


Não trago nada comigo
Que seja somente meu
Nem tenho um só sentir
Que não seja inteiro seu
Mas resta uma dura certeza
Não posso amar o amor
Que me ama sem liberdade
Nem sei mais viver interrompida
Numa duvidosa verdade...

Lai Paiva




15 de setembro de 2012

Sem razão





Passa-se por tudo
E nada é pra sempre
Que não possa findar
Daquilo que recomeça
Àquilo que não se termina
Muito se parece tão pouco
E a metade de tudo se esvai
Quando a razão de ser já não é

Lai Paiva

10 de setembro de 2012

Escrevo-me




Escrevo pra sossegar o pensar
E nem tanto ter que ocultar
Escrevo pra descrever o sentir
E pra de certas coisas fugir
Escrevo pra me fazer entender
E pra às vezes me convencer
Escrevo pra sozinha não estar
E pra escrita me acarinhar
Escrevo pra nem tudo dizer
E pra de verdade viver
Escrevo pra me reconhecer
E pra de mim nunca esquecer
Escrevo pra me eternizar
E pra na escrita tudo guardar


Lai Paiva


8 de setembro de 2012

Ainda dura tanto


(Ilustração - Patrícia Metola)


Ainda dele, sem ser
Sentindo tudo, sem poder
Lembrando de coisas, sem querer
Esperando algo, sem crer
Passando o tempo, sem viver
Esquecendo nós dois, sem esquecer
Enganando a saudade tão viva
Pra nem tanto doer...

Lai Paiva





Partícula


Hei de partir
Meu sentimento
Ao meio
Quem sabe assim
O dissolver inteiro
Talvez fugir
Sim, com pressa
Desse nevoeiro
Guardar meu canto
Daquele olhar
Que me apavora tanto

Lai Paiva



6 de setembro de 2012

De tudo, tanto e nada







De tudo fica muito em mim
Daquilo que não tem mais fim
O tanto que encontrei na gente
Buscando viver-nos finalmente
Sou mais lembrança que fato
E o amor deveria me ser grato
Enfeitei o sentir como pude
Mas meu amado foi tão rude
Que nada restou de encanto
Apenas um eterno pranto
A encher meu poema vazio
De um despertar tão tardio
Que o pra sempre nunca o é.



Lai Paiva




Carta de uma manhã sem amor



Amanheci, como de costume, com a lembrança de nós dois me despertando do sono. Um sono já leve, quando não roubado pela falta que você me faz embaixo das cobertas. Senti aquele arrepio que o seu mais suave toque causava, e o calor resultante do encontro dos nossos olhares. Parecia que você estava bem aqui, palpável, carinhoso, presenteável. 
Mas você era agora apenas um devaneio. Ainda maravilhoso.
Procurei o mínimo de certeza da sua presença. Mas a ausência do seu cheiro perfeito denunciava ser em vão a minha busca. 
Ao meu redor tudo estava no seu devido lugar. Dentro de mim, nada tinha seu lugar certo. E em cada parte faltava a sua porção que completava tudo. 
Me alimentei da saudade daquelas tantas horas que nos foram concedidas. Dos beijos com os quais seus lábios me enganaram, das vezes em que a sua pele cobria a minha com aqueles carinhos entorpecentes. 
Foi tão fácil amá-lo. Deixei que você viesse buscar o amor na minha mais reservada intimidade. O amor que nem eu mesma sabia que estava guardado ali. E parece-me que estava esperando que você viesse buscá-lo.
Um calor matinal quase poético vinha se aproximando cada vez mais. Desejei que chovesse. E que a chuva o trouxesse pra mim como tantas vezes o fez. Permaneci deitada, entregue e desarmada. Deixei que a manhã me tomasse nos braços. Meu abraço vazio parecia ter melodia. E eu desejei que você cantasse pra mim. Aquelas canções que foram tão cúmplices da paixão que permeava nossos encontros.
A paixão que eu julguei ser nossa.
Mas não ouvi nada mais além do silêncio de que são feitos os momentos em que me percebo sem você.
Desejei tê-lo comigo ao invés do sol daquela manhã. Porque sem você, já era noite em mim e assim seria sempre.
E te amando eu seguirei por todas as manhãs mal amanhecidas pela falta que me faz encontrar seus falsos encantos meus...


Lai Paiva

5 de setembro de 2012

Um cacto pra mim




Que se vá o sentir
O sentir tanto amor
De um amar tão em vão
Sentimento só dele
Bem plantado em mim
Como o mais belo cacto
De espinhos tão doces
Que machucam beijando
Me deixando as marcas
De um amar insolúvel

Lai Paiva


4 de setembro de 2012

Tão ainda...


Ainda que o ame por dias
Por dias negarei o amor
Ainda que ele seja lembrado
Lembrarei de sabê-lo errante
Ainda que tanto deseje vivê-lo
Viverei como se nunca o tivesse vivido
Ainda que tenha parecido um sonho
Sonharei que ele nunca existiu
Ainda que tudo jamais se acabe
Acabei de recomeçar a esquecer-nos.


Lai Paiva


2 de setembro de 2012

Convicta



(Ilustração João Grando)


De saudade não merecida
Com uma mágoa bem definida
Por lembrança mal vivida
À um sentir tão desprezado
Ao romance pelo avesso virado
No vazio ao meu lado deixado
Vou deixando para trás o futuro
Pois me convenço que
Aquele amor não me é puro


Lai Paiva



1 de setembro de 2012

Tão...



Tão sem tamanho o ser só
Tão sem aroma o estar sem
Tão sem sabor o maltratar
Tão sem sentido o mal causar
Tão sem desculpa o enganar
Tão sem desejo o ainda amar
Tão sem fim o rancor de lembrar...

Lai Paiva

30 de agosto de 2012

Sem saber...


Se bem soubesse
Da dor que vinha
Depois de nós
Jamais teria
Aberto os olhos
Pra te gostar

Se bem soubesse
Da mágoa toda
Que puseste em mim
Jamais teria 
Molhado os lábios
Nos beijos teus

Se bem soubesse
Da tristeza amarga
Que o teu trato trouxe
Jamais teria
Te coberto inteiro
Do melhor de mim

Se bem soubesse
Da falta insana
Que mal me faz
Teu mentir mais doce
Jamais teria
Me acostumado assim

Se bem soubesse
E soubesse tudo
Ainda assim 
Não saberia nada
Me livrar de nós...

Lai Paiva



27 de agosto de 2012

Aquilo/Isto


Aquilo que nem sei sentir
É isto de não ter aqui
O tanto que sonhei que tinha

Aquilo que mal cabe em mim
É isto de querer distante
A dor de lembrar demais

Aquilo que falta grande faz
É isto de em nada mais pensar
Que possa me enganar o riso

Aquilo que tanto quis querer
É isto que não devo ter
O amor diluído em pranto

Aquilo que nunca hei de esquecer
É isto que ouvi me cortar
O encanto que partiu pra longe

Aquilo que vivi por meses
É isto que morrerá por anos
A história tão mal acabada

Aquilo que em verdade dei
É isto que nunca mais serei
Aos olhos que me perderão

Aquilo que antes era doce
É isto que amarga a lembrança
O mal que meu sentir sofreu

Aquilo que hei de calar
É isto que me leva embora
Que distante é o meu lugar


Lai Paiva


26 de agosto de 2012

Acabei-nos


(Ilustração de Vladimir Dunjic)

Era pra ser de verdade
Dava pra ser para sempre
Sonhei que me fosse real
Esperei que coubesse em mim
Receei que acabasse um dia
Senti ser maior que explicava
Sofri tanto quanto amava
Ansiei por mais que eu tinha
Sucumbi aos sentires insanos
Vivi o que me mataria
Morri acabando o acabado...

Lai Paiva


25 de agosto de 2012

Tudo/Nada


De tudo sempre resta muito
Muito que nunca chega à nada
Nada reduz-se o que era tanto
Tanto acaba sendo pouco
Pouco é aquilo que sobra
Sobra do que era o todo...


Lai Paiva


8 de agosto de 2012

Meu poema: ele.



(Ilustração - Shira Sela)


Quis escrever-lhe uns versos
Tornei a usar uns já ditos
Senti como nunca escrevi
Os meus sentimentos maiores
Queira o instante de agora
Letrado e tão bem sentido
Ser-nos o único encontro
Frente ao amor verdadeiro
Um sentir tão raro e tão novo
Que nunca vestiu fielmente
A escrita e os olhares meus
Como depois que te encontrei
Descrevendo nas entrelinhas
Isso que agora posso 
Chamar de amor...


Lai Paiva




5 de agosto de 2012

Aqui...



(Ilustração Rogério Fernandes)


Deixa eu estar mais aí
Deixo de ficar mais assim
Sinta o que trago aqui
Sinto que te posso mostrar
Ponha sorrisos em mim
Ponho amor ao te olhar
Viva as horas comigo
Vivo carente de amar
Traga apenas os sonhos
Trago, enfim, o que somos...

Lai Paiva