14 de agosto de 2011
Lua Cheia
10 de agosto de 2011
4 de agosto de 2011
Seus olhos dele
Chovia torrencialmente. Lá fora daquela ampla e sóbria casa deles, uma sonora ventania os avisava que não estavam sós. O tempo frio lhes era companhia. E os mantinha abraçados, encobrindo um ao outro para manterem-se aquecidos e enamorados.
Em tardes assim, o tapete lhes era morada. Em meio às grandes almofadas felpudas, às taças de vinho tinto, ao som de lindas e suaves canções e envoltos em espessos cobertores.
Beberam muitas garrafas...
Anita tinha olhos aflitivos. A chuva trazia consigo trovões e relâmpagos, o que a assustava, embora lhe encantasse. E isso enaltecia ainda mais a beleza desses seus olhos castanhos claros.
Plínio acolhia seus olhares nos dele, guardando-os pra si, protegendo-os de olhares alheios. Ele mantinha uma relação exclusivista com os olhos de Anita. Tinha fixação pelo movimento de seus cílios alongados, pela cor de suas íris, pelo brilho de suas pupilas, pelo formato expressivo que jamais viu igual.
Quando olhava para ela, continha o piscar de seus olhos para não perder um instante sequer do piscar dos dela.
Anita levaria Plínio aonde quisesse, através dos seus olhos. Sem que ele sequer se movesse.
E ele costumava beijá-los delicadamente, com os lábios ávidos por sentir aquele gosto do mar que possuíam. E que lhe inebriavam. Que só ali encontrava.
Naquela tarde, depois que se beijaram intimamente, um em cada parte nua do corpo do outro, depois de sentirem seus corpos exaustivamente movimentando-se, entrando um no outro, misturando o cheiro e o sabor que o sexo deles exala, ele a fizera prometer que jamais deixaria que outro alguém a beijasse nos olhos, a tocasse ali, pois que eram dele, só dele e assim deveriam ser. Não importasse onde estivesse. E ela assim prometeu. Satisfeita por encontrar abrigo pros seus olhares, pra todos aqueles olhares que ainda havia de exprimir.
Desejavam-se com cuidado. Um sentir puro, mas forte. Que os fazia tomar conta de si. Que os fazia tocar-se com carinho, com apreço. Sutilmente, mas com a exatidão de quem conhece bem cada toque esperado pelo outro.
Os olhos de Anita falavam por si. E usavam a melhor linguagem. As melhores palavras silenciadas. E convenciam perfeitamente.
Plínio sabia que falavam pra si... Ou ao menos fazia sua esta leitura.
Anoitecera ainda sob chuva, porém a ventania emanava um som mais suave, menos urgente. As árvores lá fora não pareciam mais querer estar entre eles.
Seus olhos acalmaram-se.
Piscaram algumas vezes. Ele contou consigo. Maravilhado com aqueles movimentos. Excitado, até. Como se os fosse lamber, chupar, morder, penetrar. Sentindo assim em segredo.
Moveram-se delicadamente, tomados de charme, de intenção e de vinho. Olhares embriagados sob aqueles outros olhares e afagos. Úmidos, brilhantes, anoitecidos. Por fim cessaram. E suas pálpebras caíram-lhe como cortinas anunciando o fim do espetáculo.
Plínio permaneceu ali, acariciando os contornos, delineando os espaços entre os olhos dela. Friccionando seus lábios quentes, buscando novamente o sabor que tinham.
Até que se passaram as horas daquela noite inteira. Findando-a.
Ele não dormiu. Desfrutou de seus momentos comovidamente entregue à admiração que sabia ser mais forte que aquela tempestade de outrora. Mais forte que ele, até.
Anita perdera os reflexos. Os mesmos se esvaíram, foram levados de si.
Plínio, imerso naquela ânsia em guardar os olhos de Anita, de repente, percebeu-se a sugá-los com toda a força que havia de ter. Ela mexeu-se levemente, buscando o fio de consciência que talvez restasse, querendo despertar, mas impedida pelo vinho que lhe roubara os sentidos. Estava de mãos e pés atados. Amarrados com fitas de cetim vermelho, com várias voltas que tornavam em vão sua tentativa de se esquivar. Mas ele teve o cuidado, ainda assim, de não machucá-la. Tomou cuidado em não fazê-lo, em imobilizá-la sem feri-la fisicamente. Ela era o seu bem. O seu sentir inteiro. A sua Anita.
Na boca uma grossa fita adesiva silenciava seu desespero, caso viesse a declará-lo, embora fosse certo que seus lábios não se uniriam para gritar algo.
Seu corpo parecia querer ser ouvido, mas não tinha mais ritmo, nem voz. Tornara-se vencível.
Sem muita espera, Anita entregou-se. De olhos beijados.
Lágrimas lhe escorreram nas maças do rosto e um arrepio intenso a tomou. Deixou seus seios, ainda nus e rijos, mais eloqüentes.
Ele os lambeu ternamente. Sugou seu último suspiro. E aquele gosto perfeito lhe fez voltar-se pros olhos.
Aqueles que ela havia prometido, pra sempre.
Aqueles que ele tomava pra si. Agora.
Lá fora a chuva partira. Dentro de Anita, a vida.
Numa resposta àquela angústia, seu coração se aquietou.
Plínio vendou os dois espaços vazios de onde tirara os olhos dela. Cobriu aquelas curvas lindas de seu corpo, como se a vestisse um vestido.
Envolveu os olhos, agora seus, num lenço cinza, desses que se usa pra enxugar lágrimas ou suor, e saiu.
O tempo havia cedido àquele instante insano e apaixonante. E Plínio caminhou sem saber ao certo para onde. Mas certo de que não devia mais permanecer ali.
Ela iria com ele aonde seus olhos fossem.
Estava certo. Certo de que jamais amou igual. Nem amaria. Ainda que aqueles olhos dela, aqueles olhos seus, estivessem a enfeitar outra face.
Jamais voltaria a amar outros olhos assim.
Apenas esses. Dessa cor que nunca houve outra.
Desse brilho que ele não viveria sem...
Lai Paiva
27 de julho de 2011
De porcelana e de vida
* Para minha querida amiga de longa data e de todo o sempre, Tati Ward
Das brancas nuvens no alto, o tom da pele daquela garota aparentemente delicada e de terna beleza. Os olhos expressivos silenciam desejos só dela. As lágrimas que, por vezes, os inundam, exprimem as ausências do que nem mesmo sabe enunciar. Outras vezes, chora suas emoções e comoções diluídas. Os sorrisos anunciam as alegrias momentâneas, aquelas que lhe são tão almejadas e vivenciadas. E são cintilantes os seus sorrisos. E apreciáveis as suas alegrias. Sua voz é adocicada, macia. Suas palavras são sábias e aveludadas. Bem elaboradas e bem ditas. Acarinham e acolhem mesmo aqueles que não as merecem. Sua generosidade doa afeto a quem a rodeia. E ela nem espera algo em troca.
Lívia é uma garota incomum. De uma força presente e tímida. De muitas qualidades à mostra. Tem talento pra amar. E tendência a ser amada. Ama com a certeza que lhe falta acerca do amar dos outros. Seus gestos são exatos e convincentes. Quando e o que ela toca se enche de cor e de música. Seus sentimentos são exclusivistas. Para cada pessoa, um sentir diferente. E para todas elas a mesma entrega. Não mede esforços em cuidar. Agrada sem fazer esforços. Encanta a quem se aproxima, se une, se mantém no convívio.
Sua beleza é extrema. Longos cabelos loiros lhe caem sutilmente nos ombros, e movimentam-se com a leveza das plumas. Seu corpo é esguio, harmonioso e acolhe tão bem quaisquer que sejam as roupas que lhe vista. E possui um charme despretensioso que lhe dá certo ar inocente peculiar. Em seu rosto, traços juvenis, porém bem atraentes. Muitos garotos encantaram-se ao longo de seus anos, apenas ao pôr seus olhares nos dela, naquela beleza tão dela.
Uma em tantas. Filha, amiga, irmã, esposa, profissional. Um ser humano rico em boas intenções, em grandes ações. Uma mulher especial.
Mais que isso, uma mulher sempre em busca. Ávida por encontrar-se nos seus dias. Presente nas suas realizações. Certa do que sonha. Contente com o que tem.
Lívia é humana e vive aqui entre tantos. Atrás de sua camada branca, uniforme, há um coração pulsando rápido, por ansiedades gritantes, há um estômago ardendo forte, por angústias enérgicas. Há incertezas fluindo na corrente sanguínea. E muito querer nos suspiros frenéticos.
Sim, ela vive. Intensamente. Como só sabe ser. Mesmo quando se ausenta do tempo, quando se reclusa em seu sono contínuo, numa espécie de fuga dos instantes, ela vive nas lembranças, nas saudades, nas expressões dos seus amigos, dos seus parentes, dos seus amores. De todos eles.
Pois que onde ela passa, planta o amor em cada jardim, e sempre volta pra colher suas flores. Flores de porcelana e de vida.
Lai Paiva
Ansiosa
25 de julho de 2011
Declaração do amor maior
24 de julho de 2011
Plural
23 de julho de 2011
Sobre ontem à noite...
22 de julho de 2011
Às vezes...
19 de julho de 2011
Sentir de estômago

Sempre ouvi por aí as pessoas dizerem que sentem com o coração. Amam de coração, adoram de coração. Coração apertado de saudade, coração pequenininho por alguma sentimentalidade. Aumentam e diminuem as dimensões de seus corações como se estivessem a desenhá-lo a cada situação de alegria ou tristeza, de perda ou ganho. Algumas pessoas, as ditas mais bem resolvidas, mais experientes, dizem “mandar” nos seus corações. Escolhendo quem entra e quem sai, o que guardam lá, o que tiram de lá. Como num grande espaço público em que um ticket dá acesso livre. Um ticket que, na maioria das vezes, se dá em troca de algo, outras, se ganha. E assim movimentam seus corações como se fosse necessário este movimento para se sentirem vivos.
Sim, é romântico e bonitinho dizer que sentem com o coração. Soa melhor, enfeita melhor as declarações de amor, de carinho, de amizade. Mas meu coração não passa de um órgão vital desprovido dessa função sentimental tão anunciada. Eu sinto mesmo é com o estômago. Sinto amor, paixão, saudade, medo, raiva, ansiedade, tudo. Sinto bem ali naquela bolsa de paredes ferventes. Num misto de dor e prazer. Seja bom ou ruim, grande ou pequeno, forte ou ameno, meu sentir sempre nasce e morre lá. E aí meu estômago pulsa, arde, grita.
Não, o nome disso não é gastrite. É viver intensamente, sentir exacerbadamente. Assim como cabe a mim, como sempre coube. E assim será sempre...
Lai Paiva
18 de julho de 2011
No tempo de ser, o tempo é
Datava vinte e seis de fevereiro aquela manhã em que o sol parecia trazer consigo todo o brilho de todas as demais manhãs dos meses seguintes. De uma luminosidade especial, que poderia orientar cada passo, cada ação, cada pensamento, sem que houvesse a mínima possibilidade de anoitecer antes da hora exata.
Ouviram-se pela primeira vez meio por acaso, naquela manhã, com suas vozes misturadas a outras, em meio a assuntos diversos e nada intimistas. Num encontro entre amigos, um almoço, nada mais. Sendo assim, não viriam a colher informações um do outro naquele momento. Momento inoportuno, porém determinante para que viessem a encontrar os olhos um do outro pela primeira vez, ainda que despretensiosamente.
Alba vestia um longo e fluido vestido florido, o qual deixava à mostra seu colo e seus ombros sutilmente pincelados de um marrom médio contrastante com as claras cores que trajava.
Nos pés, sandálias rasteiras, num rosa claro, mesma cor que moldava as maçãs de seu rosto. Longos brincos davam um charme desconfortante aos seus movimentos.
Nos lábios, uma cor nude lhe caia tão bem quanto aquele corte de cabelo que os fazia pousar em seus ombros nus. Um convite a olhares alheios.
Teodoro parecia vestir apenas aquele perfume marcante, másculo, que se sobressaía sobre todos os outros cheiros. Tinha traços harmoniosos e corpo definido, sem grandes excessos. Mãos de dedos medianos e unhas bem cortadas. A barba, sedutoramente por fazer.
Seus olhos eram de um negro atraente. Intrigantes e atrativos. Bem delineados, bem bonitos.
Falava como quem recita versos, ouvia com a atenção de quem ouve a si mesmo. Educado e gentil como poucos. Lindo como só ele.
As horas passaram e o encontro findou-se. Os olhares partiram. Num breve instante pra eles.
Dali em diante alguns meses os separaram. Separaram mais precisamente aquele interesse nascido no piscar de olhos de cada um. E eles simplesmente deixaram o acaso conceber outro encontro, se assim haveria de ser. Sem nada fazer.
A espera é menos árdua quando não se abraça a ela.
Assim, um ano inteiro levou cada um para onde não estava o outro. E eles tão somente foram.
Exatamente um ano e um mês após aquele primeiro encontro, se é que poderia chamá-lo assim, Alba pousa seu olhar contornado por uma euforia sem tamanho naquele que tão presente esteve em sua lembrança insistente.
Teodoro parecia ter parado o tempo. Continuava expressivamente lindo, como o guardou em seus pensamentos reincidentes. O tempo parecia de fato não ter passado, embora sentisse que sim, que tantos dias, tantos meses, os mantiveram distantes.
Ela percebeu enfim que pensar em alguém definitivamente não o traz pro seu abraço saudoso.
Caminhou nervosamente, em cima de saltos altos que torneavam ainda mais as suas pernas, ao encontro daquele que a deixava deliciosamente desconcertante.
Por uma fração de segundo relutou. Não por nada, mas por sentir-se insegura acerca da roupa que vestia, do perfume que usava. Queria estar convincentemente linda. Para fazê-lo ficar, desta vez.
Ele a olhou com surpresa e desejo. Beijou-lhe com lábios entreabertos, bem próximos à ponta da orelha, o que a fez ouvir seu suspiro e sentir o cheiro provocativo de seu hálito.
Trocaram algumas palavras que acabaram por se perder em meio aos olhares de um para o outro. Olhares mais íntimos que da outra vez. Olhares intencionais. De uma mesma intenção. De um mesmo entendimento. Falar nunca foi tão dispensável, ainda que tivessem esperado tanto ouvir um ao outro de novo, ainda que suas vozes fossem dotadas de uma musicalidade presenteável.
Queriam um ao outro. E o tempo de sê-lo.
Puseram-se a caminhar pelas ruas que os levariam a casa dela. Um ao lado do outro. E suas almas de mãos dadas. Seus cheiros se misturando. Talvez imaginassem os instantes seguintes exatamente como queriam. E talvez eles viessem a ser. Na dúvida, preferiam seguir adiante. Sem perder de vista o acaso que se voltou para eles.
Se a alegria tivesse algum som, a cidade inteira a ouviria dali. Alta e clara.
No pensar de cada um a certeza do que queriam. Pra essa certeza o momento exato era aquele.
Ao chegarem à casa de Alba, entraram, puseram-se de frente um ao outro e se olharam novamente. Não disseram nada, mas sentiram juntos, é bem certo, que a vida começa quando eles decidem vivê-la.
E ali era o começo de tudo. E seria por quanto durar o pra sempre...
Lai Paiva
15 de julho de 2011
De madrugada, café e sentir
A noite havia chegado como quem chega sem avisar. As horas corriam livres, despretensiosas, sem compromisso de chegar a algum lugar. A lua guardava seu encanto lá longe, lá nela. Aquele encanto inebriante já dito, ouvido, inspirado. E a madrugada aproximava-se, inevitavelmente, desfilando seu frio, sua ausência de som, de cor. Sem voz, sem tato.
Zaira esperava cada madrugada como quem tem um encontro marcado. Esperava por cada minuto. Esperava na companhia de xícaras generosas de café, no intuito de mantê-la excitada. Bebendo cada uma delas como quem bebe a noite na esperança de que logo se vá.
Caminhava até a janela de seu quarto na intenção de sentir a noite ir embora. No desejo de despedir-se silenciosamente. Beijando-lhe a face que não tinha e sussurrando em seu ouvido imaginário um adeus adocicado.
Vestia-se de ansiedade. De modo que suas mãos tremiam, seu corpo suava, seus olhos dilatavam-se. Era de uma loucura fascinante aquela espera. E de uma eternidade inquietante.
O café molhava seus lábios tão carinhosamente. Parecia prepara-lhes para beijar o tempo lá fora. Descia-lhe acariciando seu íntimo. Perfumando cada cantinho de si. Como se fosse possível que pudessem sentir seu cheiro, seu gosto.
Não havia ninguém ali além dela. Nem era preciso, nem esperado. Ela gostava e queria estar só. Aquelas madrugadas eram só dela. Ninguém poderia vivê-las assim, com tamanha cumplicidade.
E entrava numa espécie de transe quando se percebia dentro daqueles instantes, depois da zero hora. Algo indescritivelmente prazeroso. De um prazer singular.
A partir dali, nada mais importava, nada mais a tomava. Não era de mais nada, nem ninguém. Não queria mais nada.
A partir dali, era apenas ela e o seu sentir. Seu sentir silenciado.
E sentia como quem sente que não lhe restará mais madrugadas assim. Ainda que já as estivesse sempre esperando...
Lai Paiva











